segunda-feira, 30 de outubro de 2023

cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu rosto, dilacerou-me o peito e mudou completamente o curso do meu rio?
Eu já acreditei que pudesse me curar, e esperava pacientemente, cuidando das feridas com amor, o dia em que tudo se regeneraria - mas nada tornou a ser. É fato que o sangue estanca, a dor pára de pulsar e a pele cicatriza: mas a história está para sempre posta ali, bem na superfície, e também decantada nas profundezas, junto com outras memórias lamacentas.
Diante do impossível, abracei minhas chagas, e, ao mergulhar bem fundo nelas, eu encontrei uma nova versão de mim, e nos meus olhos eu finalmente me enxerguei, irremediavelmente ferida, mas em paz. Eu era l, não mais apenas o que fizeram de mim, mas a estrada que escolhi após o açoite, em plena encruzilhada.
Depois de tanto tempo ansiado pela cura que jamais viria, eu consegui parar de correr, e parada, olhei ao redor, e simplesmente respirei. Olhei pra trás e vi a tragédia da qual eu havia escapado: a morte em vida, de quem, por fim, se abandona para se ver apenas refletida pelos olhos turvos dos outros - mas mesmo cega, eu tateara meu caminho pra fora, correndo, amedrontada, sem olhar pra trás.
A cura não veio, mas a paz se revelou - não como a ausência de dor, ou de conflito, não como passividade submissa, ou mar de calmaria que eu imaginara.

A encontrei silenciosa ao meu lado. Não sei por quanto tempo ela anciara por mim. Mas ela estava ali, mesmo em dias de batalha, nas minhas piores guerras. Finalmente eu percebi que a paz que eu buscava, chamando-a pelo nome errado (ela não era cura) é olhar pro lado, e ter a certeza que aqueles que se colocam ali - ombros se encostando aos meus, sentindo o medo e o calor exalando dos meus poros, sabendo de minha finitude e vulnerabilidade - me olham com olhos de amor, e ao me ver refletida naqueles olhos límpidos e bondosos, depois de tanto tempo, me vejo inteiramente refletida também, e tenho a certeza que também sou vista. Sentindo o calor de meus camaradas, que me sabem inerentemente falível, porque humana, sei que as mãos que levemente tocam minha pele, motivam minha caminhada. Sinto ainda que, mesmos que essas mesmas mãos não possam me proteger do meu destino, não é através delas que vou sucumbir.

Assim, a paz vai se enraizando em mim, preenchendo meus espaços, fazendo ninho entre o concreto que me solidificou. Sem planejamento e sem cura, ela cresce a vontade em cada espaço fértil, e novamente consigo respirar e portanto sorrir.

Tudo e tanto

Nada falta, e ainda assim... Anseio. Mas como nada falta, busco primeiro o rumo. 
Olho as estrelas, a lua e o nascer do sol, em busca de direção. Paro e tento ouvir o barulho do curso d'água mais próximo, para que o essencial não me falte. Preparo-me para partir, e no abraço de despedida - de repente - encontro. E percebo - nada falta, tudo transborda. E cada um só pode transbordar a si - me transbordo em excessos, gargalhadas e anseios. E já não sinto falta daquilo que transborda 'nada', e espalha ausência.
A falta me ensinou - é ali que se descobre o óbvio: quando nada falta, tudo transborda.

sábado, 2 de setembro de 2023

Visitas indesejadas

As visitas obscuras me desequilibram, me adoecem. Quando essa massa de ódio e negatividade cruza meu caminho, e sussurra ao meu ouvido, eu me sinto demasiadamente humana, e vulnerável. 
A legião ainda tem efeitos sobre mim, e me pergunto se algum dia será diferente.

Mas por fim me lembro: não estou mais fadada a passar meus dias no inferno, e o demônio só me visita as vezes porque não dividimos mais o mesmo lar.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

paz

Em algum momento, no ano que já passou, me perguntaram o que eu sonhava pra mim, quais eram meus planos, meus anseios, e eu disse: paz.

Precisei conhecer o inferno, e me desapegar dele, deixá-lo ir - e foi muito mais difícil do que eu poderia imaginar - ainda sinto falta de algo que não sei pontuar. Mas ao abrir mão daquilo que me consumia, mesmo pagando um preço que ainda soa alto em meu coração, o universo soprou, e dentre tantas outras coisas, eu também me sinto em paz.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Prisão

Entre a subserviência e a tirania se estende um universo, em uma de suas curvas, recostada em uma árvore, eu escolhi me sentar; eu espero. Sentada, com o queixo erguido, o peito aberto, e os olhos em desafio; sobre a mesa de pedra fria a minha frente eu exibo orgulhosa todas as minhas opiniões: fortes, com profundos alicerces. 
Mas minhas mãos estão abertas, em oferenda, e também em súplica: divida-se comigo, mas também me ouça. Misture-se comigo, sem se perder, e entenda que o que eu penso é apenas isso: brisa pensante, nuvem que pode se desfazer em condições climáticas favoráveis.
Eu construí essa opiniões com solidez, mas posso destruí-las – se se provarem tolas – com a mesma avidez – sei que não posso aprisionar ninguém por trás de suas grades subjetivas: nem você, nem eu, nem pássaros, nem os frutos de nós.
Quero crescer com o que me trazes, e ver-te em movimento com o que tenho a te oferecer – sem amarras ou dominações – para cada vez mais distante da tirania.
Não quero ser sua, nem que sejas meu – e desejo em meu coração que aprendas a ser seu, e não cego seguidor dessa voz que insiste em sussurar aos seus ouvidos, e te oferece doces confortos em troca de sua vida livre. Espero que... em alguma parada dessa longa estrada entre a posse e a prisão e a anarquia... que você encontre sua voz, seus sonhos, e ouse seguir em frente, sem voltar àquela lustrosa e ‘aconchegante’ gaiola de ouro, onde seu peito foi rasgado, seus sonhos castrados, e você só canta para entreter quem te possui.

domingo, 28 de maio de 2023

homem

No início eu via um homem nobre,
Depois pareceu-me bom,
Convenci me então que era ao menos funcional.
Hoje, me questiono se, algum dia, homem foi.

domingo, 21 de maio de 2023

mulambo

Achei que ia amar até morrer, quase morri de tanto amar.
E viva, levo um coração meio morto, doente. Sem vontade e desgostoso.
Como eu, perdeu a fé, a esperança. Apanhou tanto, que já nem lhe interessa bater.
Como eu, segue por mero vício na teimosia.
Maldito mulambo insistente

quinta-feira, 30 de março de 2023

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Você me queria perfeita, impecável;
Eu esperava que você fosse bom.
Fracassamos.

quarto

Sobre nossas cabeças há um teto, que nos separa das estrelas. De lá, mortas ou não elas podem nos espiar. 

Esse teto nos protege, nos acolhe. 

Um lar para voltar quando as jornadas e buscas derem trégua; um lar para se despir das armaduras; um lar para plantar uma semente, e enquanto as primaveras passam, vê-la crescer e se tornar sombra. 

Meu lar é onde meu coração consegue repousar, e é aqui, nessa casinha velha, barulhenta, e precisando de reparos que repousamos. A despeito das rachaduras e goteiras, eu sorrio – e vejo diariamente brotarem novas memórias de alegria – as quais, daqui um tempo, chamarei carinhosamente de saudade. 

Há muito escrito nessas paredes, sob cada camada de tinta e pó.  

Há assombrações que só eu vejo – elas gritam, de um passado, mas eu ainda sinto, escuto, e me assusto com os ecos vindos de lá – mas perdoo: há espaço para alguns fantasmas aqui, entre os livros, atrás de algumas portas, em meu peito. 

Minha casa tem um quarto desocupado – o qual tento esvaziar, tirar o entulho, mudar a cor da parede, mexer nos móveis. Ele, que é parte da minha casa, às vezes faz morada em meu peito, e o pesa – toneladas de vazio e só. Desocupado sim, vazio... já não tenho tanta certeza. Por vezes parece que esse único quarto se torna maior que minha casa, que o país, ele ocupa cada canto do meu ser – e eu nem sei mais quem sou, pelo espaço desocupado que esse quarto ocupa. 

Mas ele é só um quarto – e um quarto não desfazerá a alegria das trincas do meu lar. Não preciso redecorar, esvaziar, reformar. Posso fechar a porta, trancá-la, e me esquecer que existe, que existiu. Não isso eu não posso. Ele continuará lá, e eu, o espiarei pela fechadura. 

Talvez cada dia eu tire uma pedra, uma guimba de cigarro, eu limpe uma única marca de pé da parede, eu arranque os pregos que pendem da parede, e tampe os furos. Se cada dia eu recolher uma lata de cerveja, ou catar os cacos de uma garrafa quebrada, talvez enfim, não sobre nada. E vazio meu quarto volte a me pertencer. 

E sem pressa de ocupa-lo com novas cores, flores ou odores, eu o deixarei ser. É melhor que esteja vazio para quando um novo sol brilhar, e lá dentro desse quarto, como fazemos em todos os outros cômodos da casa, pudermos brincar. 

onde deus

Quando deus saiu da minha vida, estávamos ambos feridos, quebrados. Ele bateu a porta violento, eu parei de bater palmas pra ele, e soube que ele jamais voltaria. Fiquei em silêncio enquanto o via sair raivoso, pela porta da frente, me ameaçando, me chamando de pecadora, dentre outras coisas.
Sabia que jamais poderia chamar de pai aquele que me punia, me agredia, que não conseguia me enxergar, ver minha dor, me salvar - ou pelo menos tentar. Ele bradou que eu não o respeitava - estava certo: eu apenas o temia.
A partir dali, eu me negava a adorar um deus que sabia que em algum canto, aqui e agora, uma criança estava dando seu último suspiro, entres soluços, pelas mãos sangrentas de alguém que se julgava semelhante aquele deus: prepotente, onipresente mas inoperante.
Compactuar com o aniquilamento da inocência, ou com injustiças era pra mim inaceitável - e ainda é. Não queria dividir minha dor, meus segredos, os últimos minutos antes de adormecer e meu despertar com aquele ser tão desprezível. Era melhor que fosse.
E foi assim que a fé que professei por uma vida se foi. E com ela, parte de mim.
Restou-me o silêncio, o vazio. A decepção de quem não sabe se foi enganada ou se enganou.

Então, num dia, quando já havia vida em mim - a presença divina preencheu minha tristeza solitária - enquanto eu chorava já prevendo a dor por vir, três passarinhos cantaram, e eu soube que não deveria me preocupar.

Entendi que a divindade morava no sutil, na linha que unia meus retalhos, aos retalhos de outro alguém, para  assim fazer brotar o novo. E mesmo depois de desalinhavados, e marcados pela agulha, ou esfarrapados por completo, em algum tempo, foi o divino que morou ali.

Percebi que a presença divina era o silêncio que nada dizia, ou fazia, mas que me ouvia, e me permitia ouvir meu pranto, que me deixava no chão, lambendo as minhas próprias feridas, ou fertilizando o solo para uma nova versão de mim.

 O sutil que morava numa ligação inesperada, no sorriso da desconhecida que se transformaria em colo, e proteção. 

A vida, teimosa em brotar, era o divino, a busca do equilíbrio, de rotas, de formas de sobreviver, ou de simplemente morrer em paz.

A porta então não se abriu, porque eu vi que a luz divina brilhava em mim, e jamais tinha me abandonado. Não era criação, caminho marcado, nem certo ou errado. O divino era criativo, fluido. 
E morava em mim. Eu soube que não poderia mais brigar com aquela força que era certamente mais forte que eu: abri meus braços e agradeci em prece - tudo ficaria bem.

terça-feira, 7 de março de 2023

morrer de amor

Achei que ia amar até morrer, quase morri de tanto amar.
E viva, levo um coração meio morto, doente. Sem vontade e desgostoso.
Como eu, perdeu a fé, a esperança. Apanhou tanto, que já nem lhe interessa bater.
Como eu, segue por mero vício na teimosia.
Maldito mulambo insistente.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Verso e versão

Bem, mas essa é a minha versão, né? Minha verdade.
Como seria essa história se o narrador fosse outro, se o ponto que observa o enredo se apresentasse de outra perspectiva?
Suspiros. A história seria outra. Outro seria o livro. 
Não mudaria só a capa, ou a edição.
Talvez eu fosse apenas uma personagem secundária, aquela pessoa que jamais chegou a fazer parte no núcleo central do enredo - da nobre família, dos 'mocinhos'.
Talvez eu fosse uma nota de pé de página, até sem nome, ou descrição. Alguém que cruzou um caminho, trazendo mudanças - como um atropelo que mudou a trajetória do herói.
Talvez desde o início da história eu tivesse sido apenas acessória, descartável. Uma pedra na caminho. Ou uma ponte.

Na versão do outro talvez eu seja a vilã: mal intencionada, manipuladora. Aquela que, por interesse, vaidade, ou pura maldade, o tira do caminho virtuoso para o qual era destinado.

Talvez sim, percebam um pouco do meu protagonismo, e eu nem seja retratada como um fantasma, um espírito obsessor, uma bruxa, ou uma loba - a má ou a que corre. Mas seja alguém que mereceu sim todos os revezes que seu personagem sofreu.

A versão do outro talvez não tenha tanta poesia, tanta rima, tantas pausas em meio ao clímax. 

Na versão do outro talvez as frases sejam curtas, e encerradas com pontos finais. Talvez haja muitas páginas em branco. Poucos diálogos. Silêncio e tempestade.

Mas a minha versão, eu conto com travessões, dois pontos, reticências. Tenho muitos pontos de interrogação e algumas exclamações também.

A minha versão é longa, porque gosto de trilogias, de sagas, enciclopedias! Quanto mais páginas, melhor!
Gosto de personagens complexas, profundas... deixe as lineares para aquelas histórias de finais previsíveis. Os lineares sabem de onde vem, e pra onde estão indo. Sou uma personagem aberta, em construção.

Ah, e se possível, quero uma edição ilustrada com aquarelas de cores bem vívidas. 

É, talvez as versões desse enredo sejam tão diferentes, e também tantas, quem ninguém saberá, mesmo ao fim, que se trata da mesma história... Talvez eu sequer me reconheça na versão do outro. 


Mas ao virar cada página do livro dos meus dias,  da versão que eu conto com orgulho, e conheço, eu sinto aquele inconfundível cheiro de 'amorosidade' e aprendizagem -  cada página virada é história escrita, passada no papel. Cada capítulo encerrado, é possibilidade de recomeço. Portanto: fim. 

domingo, 25 de dezembro de 2022

perdão

Por que não vemos?  É tão claro, tão simples.
O perdão carrega em sua origem uma grande decepção.
Só é preciso perdoar quem nos feriu, nos magoou. Quem roubou de nós nossa alegria, dignidade e fé.
Se o outro é impecável, se jamais pecou, não é necessário perdoar. Perfeito!
Mas, humanos, erramos! Humanos, lutamos contra deixar ir a dor que estamparam em nossa cara, que atravessaram em nosso coração.
Perdoar é tirar a dor de dentro do amor, ainda que permaneçam os limites e a distância. Ainda que saibamos que é no passado que o outro morará.
Perdoar é deixar mais leve a bagagem, e seguir com as boas lembranças, mesmo que poucas, com os frutos. Com os sonhos. Com a fé de outrora.
É continuar com passos suaves, por um caminho que nos leve cada dia para mais distante de onde nos feriu – mas com alguma gratidão.
O perdão não precisa de forma, de voz, nem de razão.
Ela, a razão, sempre tão justa e equilibrada, pode pesar para um lado e outro, e por fim permanecer imóvel: aprisionando o perdão em seus pratos. Justa e cega é a razão, que não pode conhecer o perdão.
Para perdoar é preciso deixar a razão de lado, apagar as linhas do merecimento: eu não merecia, e portando quem me feriu não merece meu perdão.
É tão difícil: porque perdoar é horizontalizar a dor que levou o outro a te ferir, e a dor que imprimiram em você. É se nivelar, mas é fechar um ciclo.
Portanto, hoje eu me perdoo.
Perdoo-me por ter acreditado que merecia o açoite em minha carne. O título de burra, difícil, desequilibrada, de velha, de gorda – como fossem falhas.
De dependente, de ‘ruim’, de louca.
Eu me perdoo por ter acreditado que merecia todo ataque, a violência, os gritos, o julgamento, a frieza.
Eu me perdoo por pensar que minha amorosidade era fraqueza, e portando deveria ser tratada com desamor.
Por fim, somente aquilo que damos é verdadeiramente nosso. Não posso te dar um presente se estiver de mãos vazias; minhas mãos também não podem ser veículo de um tapa, se ele não sair dali..
Não posso dar um beijo, se não o fizer brotar de meus lábios. E é sua a ira e a raiva que você espalha em forma de agressividade. 
E assim, de tudo que tenho, e posso ofertar: hoje eu escolho o PERDÃO.

sábado, 10 de dezembro de 2022

estrada

Eu cai. Não sei, mas parece que passei algum tempo inconsciente. Olho ao redor e já não reconheço minha estrada. Eu tinha um plano... E era tão bonito. Eu estava no lugar certo, na hora certa. E tinha ali a pessoa certa, segurando minha mão. 
Talvez tenha sido apenas um sonho. Um delírio. Uma vontade faminta. 

E no agora, estou aqui, nessa estrada coberta de neblina, onde meus pés, por mais firme que os crave ao solo, parecem vacilantes. Mas eu sigo. 

E sinto. Tocam em meu corpo pessoas que não me deixaram, e não me deixarão cair. Sinto braços em torno de minha cintura, mãos segurando as minhas, ambas, enquanto eu tremo, e uma luz bruxuleante se mostra ali.

Já consigo ver árvores bonitas que me farão sombra. E sei que não caminho ao encontro de ninguém. 
O vento me soprou aos ouvidos que destino não é companhia, e Cia não deveria ser destino. O vento não me disse, mas finalmente entendo: talvez o destino importe pouco quando a estrada é mágica, e as cias encantadas. 

Talvez eu jamais refaça os planos, e simplesmente siga - com o vento que susurra, a chuva que lava, o sol que ilumina, e a lua com seus mistérios. Olhando, tocando em frente, sendo tocada por esses outros caminhantes curiosos. Talvez, meu destino seja simplesmente a estrada, a travessia

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

tristeza

Esse mar de água e sal, esse oceano de vida e afogamento, fui eu quem pranteou.
A minha tristeza é bonita e produtiva, nela choro mares, ríos, recifes, corais, e toda sorte de peixinhos.
Após tudo chorar, secam os olhos, mas, por vezes, não seca, não cessa, a tristeza.
Então sou barco sem rumo, numa maré revolta, em águas profundas.
Sou  nau a deriva.
Então, minha doce tristeza é âncora. Frescor e firmeza, que me para, me pausa, me desacelera. Então, no meio da tormenta posso me lembrar de quem sou, de onde vim, pra onde vou. E respirar sabendo que não naufragarei em meu próprio mar.
A tristeza é água salgada, mas também é respiro, vertedouro.
É a tristeza salgada que me leva de um porto ao outro, é a tristeza ancorada que me permite sobreviver. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

ser um ser

Feche seus olhos e imagine. É você no lugar dela. Não no meu, não no seu: no dela. O bebê em meu colo.

É seu pai, é sua mãe. Não somos nós. São eles. E então, não seria você. Jamais teria havido você, se ele tivesse te ensinado a ser como você é.

Foi você. Não foram eles, não fui eu.
Mas poderia, e ainda pode, ser sua irmã. Poderia, e ainda pode, ser nossa filha. E meu coração se quebra.
Minha dor é grande, mas sendo ela, seria inominável.

Também pode ser a outra. E se for, espero que ela não seja como eu. E te impeça de continuar sendo assim: como você escolheu ser, e é.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Perdas e danos

Quão difícil é abrir mão de grande sonho, mesmo após ver que ele se transformou em um pesadelo, em uma realidade opressora?
Quão decepcionante é ver que você investiu tudo, sua própria vida, sua fé em algo que sequer existiu?
Sempre digo que a decepção é proporcional a aposta: se apostamos tudo, perdemos tudo. Se não colocamos nada mesa é muito fácil se retirar, sem olhar pra trás. 
Orgulho-me de minha ousadia medrosa - eu temia, sentia que me quebraria toda - eu sabia... Mas pulei do abismo de coração aberto, alma desnuda... E me despedacei. 
Vê? Todos esses aí, aqui, são fragmentos de mim. Destroços. Mas se eu os colocar novamente juntos, quando os colocar, ainda serei eu. Sonhando novos sonhos, tomando novos rumos - colada, mas para sempre quebrada - eu.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Finados

Os céus choram no Dia de Finados, e nos lembram que até a vida mais linda um dia finda. E antes dela, vários de nossos sonhos inocentes - ser escritora, ter um gato, um caso com nosso cantor favorito, formar uma família 'perfeita', encontrar o amor que vai fazer tudo ter valido a pena. 
A vida é impermanência, e em um segundo, tudo se desfaz; ou lentamente, em pequenas incisões diárias, que fazem com que nossos corpos ou almas sangrem, e que  a vida, a alegria, ou o amor se esvaiam.
Como várias doenças, e também alegrias, como tudo, a vida é terminal. 
Certifique-se de vivê-la antes de morrer,  aproveite o privilégio de ter recebido algo tão raro. Se hoje fosse seu penúltimo dia de vida, você estaria feliz com o que fez com seu tempo, com seus afetos?
Celebre cada versão sua que renasce quando seus sonhos morrem, quando o luto passa.
E assim, talvez ainda tenhamos tempo.

 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Pomar

Uma vez eu te disse que era impossível germinar, e dar frutos, estando ainda em nossa origem, em nossa árvore, atado as nossas raízes.

E você disse, não quero romper, quero somar! E eu carrego essa conversa, enterrada em meu peito.

Eu tentava te tirar do pé - fruto bonito, pronto. Bastava cair, e permitir que a vida e as condições te guiassem. 
Ao chão, aos poucos, você deixaria de ser fruto, e suas sementes se espalhariam, e você seria árvore, e seríamos todos um lindo pomar. 

Você achava que eu queria te ferir, enquanto te sacudia, te cutucava - e olha que nem lhe arremessei pedras. Você quase veio.
Mas preferiu ficar - junto aos galhos que te protegem, e também te escondem - definem. 

O fruto só cai da árvore uma vez, dói, mas  passa. Tanto pro fruto caído, quanto pra árvore vazia. Passa.
Enquanto ele apodrece ao chao, não sabe que fertiliza o solo  onde vai brotar seu amanhã.
O broto não sabe o que há fora das rígidas paredes da semente, e é preciso força, coragem e tempo pra romper. Ao sair da terra, o broto é frágil - mas vivo e capaz de ser árvore grande.
É preciso vir de mangueira para ser mangueira - frondosa, frutífera, cheirosa, mas é preciso que a árvore que nos deu a vida  não faça  sombra demais, nem de menos. Ela precisa deixa ir, deixar crescer. E nós precisamos ser firmes, fiéis as nossas raízes, mas determinados a espalhar nossos galhos, folhas, pólen. Florecer. Frutificar. Fertilizar.

O fruto não cai longe da árvore, eu disse.  Não a você, mas para as minhas raízes. E ao cair, já madura, rolei para o mais distante que pude. Também tive medo, também quis voltar. 

Hoje, árvore mediana que sou, suporto, sem sua sombra (para o bem, e para o mal) as intempéries da vida. Só. Recebo mais pedradas, sou presa fácil de formigas, e pica paus. E te vejo fruto perdido na folhagem. Escondido. Dependente. 

Aqui, quase tombo. Perco as folhas, e vejo vergar meus galhos, enquanto dou toda a minha seiva para fazer vingar nosso fruto - para que, em tempo, ela não se some a mim, nem a você, e também não suma - mas que possa ser tudo o que a semente da mexerica quiser.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Caro e custoso

Vínculos são custosos. O custo implícito, financeiro ou não, é altíssimo. 
Quanto se gasta com um Uber? O gasto é esporádico, curto. Nem damos valor. Mas manter um carro, no seu nome, demanda muito: impostos, seguro, manutenção. Preocupar-se com a limpeza; se tem água no reservatório; calibragem de pneus; abastecer. Onde estacionar. E é preciso ter carteira de motorista. Quantas preocupações! Mais fácil pegar um Uber, ou usar o carro do pai. 

Casa? Para quê? Tem infiltração; toneira da cozinha que não sai água; IPTU; limpar as calhas. Meu deus, o telhado está cedendo, e as trincas aumentando! E eu ainda nem terminei de pagar... A casa.

Cachorro? Solta pêlos, come nossos objetos. Tem que dar vacina, levar ao veterinário. E é tudo tão caro. E depois que eles morrem, a gente fica num sofrimento! Melhor não tê-los. Evitar custos, sofrimentos. 

Filhos? A esses são ótimos, ficam lindos nas fotos, nas festas, nos fins de semana. São ótimos pra dias de folga, quando tá tudo lindo! Mas tem que acordar a noite, sacrificar a vida profissional, a saúde mental, é pro resto da vida. Já viram o preço de fralda, escola, nebulizador, roupa, brinquedo, livro, terapia? Ah, eles vão precisar: porque no fim, vai ser tanto trauma causado pela gente. Esse vínculo pro resto da vida... Hum, num sei que quero. Preço alto, alto risco. 


Família? Nem vou começar. Pagamos com a alma, mensalmente, ou diariamente - depende da convivência.

Relacionamento? Os laços de um relacionamento precisam ser constantemente refeitos, revisitados. Tem que conversar, escutar, entender o que se sente, decodificar pro outro - burro, que nada entende - e debater. Isso de olhar pra mim, olhar pro outro é caro demais. E o outro nem me é tão caro assim...
Não, não, não.

Talvez os vínculos empregatícios, por um tempo curto, até que um melhor se apresente, e possamos ir trocando até que... sei lá, a conta no banco esteja mais robusta, e eu possa pagar custos mais altos. 

Entendo quem não queira vínculos. É muito mais fácil, é mais suave. Sem vínculos evitamos vincos profundos em nossa pele, cicatrizes sangrentas em nossa alma, preocupações que nos impediriam de entregar aquele projeto da empresa na data certa, ou comparecer pontualmente na entrevista. 

Dá trabalho demais caminhar do lado, trazer pra si. É difícil saber o que nos é caro, se vincular; trabalhar para que os laços se façam sem estrangular nada, nem ninguém. Estar ali para aquilo que nos é caro é custoso demais. O preço é realmente muito alto.

Precisamos, nos deslocar do ego, e entender o outro. E ter compaixão e empatia. E despender dinheiro, às vezes muito mais do que temos, e tempo - que também é dinheiro, que também é tempo (que é vida contada em minutos ou em horas, ou em dias - qual a sua carga horária?)


Suspiros. Estou cansada. Sou uma mulher que vive nos laços. As vezes, os seguro tão firme que as mãos sangram. E os nutro, os cuido - não por ser dona deles, mas por saber que eles me definem. É onde o outro me toca, e me desafia, que eu germino.

Entendo que é mais fácil ir, ser fulgaz, acabar antes mesmo de começar - afinal, se o fim é inexorável, o desgaste, o cansaço e a luta são opcionais. 

Mas é que prefiro o enredo ao fim da história. Gosto de comprar o livro, virar as páginas, 'perder' meu tempo pra saber o que vai acontecer. Gosto dos vincos das páginas, e dos vínculos da vida. Caros. Custosos. Dolorosos. Moro, e morro, nos vínculos, nas alianças - mesmo naquelas que jamais chegaram a existir.








cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...