domingo, 5 de maio de 2019

Suas lições

Não, as coisas não acontecem por uma razão celestial. É a gente, que teima em seguir e ser feliz que consegue encontrar um lado bom em tudo. Somos nós que ao ganhar uma tonelada de limão da vida resolvemos fazer com ele limonada, mousse e caipirinha. A gente toma limão com água em jejum; usa como produto de limpeza; substitui o 'engov' e o boldo por limão; vende; dá para os amigos.

Somos nós, seres adaptáveis que pegamos as pequenas e grandes tragédias de nossa vida e tentamos aprender com elas; nesse caso aqui tá claro que foi a galinha que criou o ovo, digo problema. O B.O. veio primeiro, e a gente resolveu fazer um omelete com ele.

O problema, quase sempre estava lá, a gente que pegou o problema, alimentou, deu água, vacina. Era para ser só um lar temporário, mas a gente se apega. Se apega ao trabalho que não dá prazer; a alimentação rápida e pouco saudável; ao cigarro nos fins de semana; ao relacionamento merda.

Daí quando a gente assusta, tem 39 cachorros e 58 gatos no quintal, para ajudar a superar o fardo de acordar cedo para ir para o trabalho que paga mal, te emburrece, e te dá vontade de perder o réu primário sem pestanejar. Quando você cai em si, já não consegue levantar, tamanho o peso do seu pânceps, que tinha forma de 'pãozinho sovado' e agora é uma panhoca tamanho família feita pra comemorar o aniversário de 85 anos da padaria da cidade. Quando você percebe sua saúde foi-se como a fumaça que sai da sua boca, depois de enegrecer seus pulmões, e calar sua voz, antes tão afinada.

Quando você vê, o amor que veio te fazer uma visita se instalou por anos, bebeu e comeu de sua energia vital, te deprimiu; te traiu; te agrediu e te deixou pra traz, pra morrer sozinha e lentamente. Mas a gente? A gente chora deitado na merda durante um tempo, e quando cansa - não costuma demorar muito não - a gente pega uma pá, um carrinho de mão, junta a merda e vai fazer um jardim. Enquanto a gente cuida da terra, deixando-a fofa, adubada com o legado de nossos erros, a gente vai pensando. Olhamos pra trás e percebemos que desde o início o alerta se acendeu. Não era só o cigarro que carregava no rótulo a mensagem de 'cuidado, isso vai acabar com você'. Só que a gente, assim como com o cigarro, resolve ignorar os sinais, e achar que a gente vai ser a exceção. Num vai não.

Então, quando a vida cobra, a gente se conforta dizendo: tudo tem uma razão de ser! Eu precisava aprender, e a vida encontrou uma forma de me ensinar. Não, meu irmão. A vida já tinha te ensinado, mas você, assim como eu, foi pra prova sem estudar, sem dar importância as notas, aos 'pés de página'. A gente insiste no erro até que o erro quase nos afoga - mas como a gente é teimoso, dá um jeito de boiar e chegar até praia. Infelizmente tem gente que não aprende, se afunda, e morre com o erro. A gente não.

Pessoalmente me sinto uma boa aprendiz, às vezes lenta, mas cada coisa ao seu tempo. Eu sigo errando, errante, porque insisto em não ficar no mesmo lugar. Teimo, faço do meu jeito, às vezes acerto, às vezes erro; engulo o orgulho, tento de novo, mais atenta dessa vez - aprendo. Sigo para o erro seguinte. E é assim de merda em merda que vou vivendo, vou plantando mil jardins. Alegro-me, mesmo, ao olhar pra trás e ver tantas flores, nascidas de meus erros, aprendizados de raízes profundas que ninguém, nunca mais, vai me arrancar.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Sobre como eu saí do Tinder

Sobre como eu saí do Tinder.   Verdade seja dita, eu fiquei no Tinder por muito pouco tempo, e não cheguei a sair com ninguém de lá, propriamente dito – o que não significa que não tenha me utilizado de aplicativos análogos por um bom tempo.

Divorciada, passada dos trinta, sem paciência e tempo para balada – após um mês de soluços deitada no chão da cozinha, e nos braços das amigas – me vesti de esperança e um short curto e saí com meus irmãos – ambos casados, e suas esposas. Fui a um festival de cerveja artesanal: se tudo desse errado, e a bad batesse na minha cara, era só mergulhar de cabeça num copo de 500ml de Session IPA ou qualquer outra que me lembrasse que apesar de amarga a vida pode ser boa, e relaxar.                

O festival é ótimo. Gente bonita sem ser chata; feira de adoção de cachorros; música boa e comida também. Achei aquilo legal, baixei o happn, liguei meu localizador e páh: a bateria do meu celular morreu. Acabei mergulhando em vários copos de cerveja – não porque a bad batera (aquele era um dia bom) – mas porque afinal de contas, o festival se chama Experimente, e esse acabou se transformando em um dos grandes imperativos da minha vida.

Experimentadas as cervejas, findo o festival, ou nossa permanência lá – já não me lembro, volto para casa – atravessando algumas cidades da região metropolitana de Belo Horizonte. Bato em casa, deixo o celular carregando, alimento os dogs e saio novamente para a despedida de minha melhor amiga, que estava indo morar no interior. Divorciada, passada dos trinta, sem paciência e tempo para balada, com a ‘bestie’ indo embora. Devo ter contado a ela; ela deve ter feito algum barulho engraçado (a sonoplastia dela é interessante) enquanto comemorava meu retorno do mundo dos ‘sem esperança no amor’. Após um longo dia de farra – algo que todo coração partido faz, na esperança de ser feliz de novo, ou de remendar as partes quebradas com álcool – voltei para casa.                

Tinha ‘crushes’. Aquilo era novo para mim. Significa que eu tinha curtido as fotinhas de uns manos e eles tinha me curtido de volta. No primeiro dia, eu não sabia que tinha um ‘perfil’, uma pessoa por traz do cardápio - eu só via as fotinhas e com a ajuda de meus irmãos e cunhadas – ainda no festival, cliquei numas quatro ou nove. Bem, em casa, cansada, ainda bêbada resolvi lidar com as consequências da minha impulsividade e fui conversar com os ‘boy’ (no singular mesmo, porque no primeiro dia foi só um).

Eu preciso dizer que para quem estava no fundo do poço eu me comportei muito bem: falei putaria, recebi nudes, e devo até ter mandado – não lembro, preciso refrescar a memória de vocês que tinha ido a um festival de cerveja e um bar no mesmo dia. Enfim, esse crush até deu certo, saímos algumas vezes – a conversa era direta, os convites também: ‘tô sozinho em casa, vem pra cá.’    

 Por alguma razão a gente parou de sair, mas sem aquele ranço que fica de quando a pessoa te ilude, ou tenta te iludir. A gente nunca fez planos; a gente sequer tentou atar nós – e foi ótimo assim. Nos falamos até hoje, e enquanto estivermos ambos solteiros, acredito que possivelmente não resisto a um “vem aqui”, ou “tô indo aí”.                

De lá para cá tive umas poucas experiências boas, entretanto na maioria das vezes era ‘dedo no cu e gritaria’ – não no stricto senso – apesar de tentarem com frequência, né meninas? Dedo no cu e gritaria porque parece que todas as almas penadas do mundo tem perfil em sites de relacionamento.  Saí com um professor carente que não me pagou nem um café – a carência deve ser financeira também; com um doido que só marcava de sair para almoçar e se dizia um expert com a língua, mas não sabia nem beijar – não fiquei para ver o resto; um menino que parecia bem legal, mas herdava o nome do ex, era excessivamente carente, e gostava de lamber meu rosto, e meus braços (isso no primeiro encontro, enquanto estávamos no meu restaurante favorito. Nunca mais voltei lá).

Preciso abrir parênteses aqui, essas características foram apenas parte do problema, não me julguem, ou julguem. A verdade é que essas eram as características que via a época, e confabulava sempre com minhas amigas sobre meus ‘incômodos’. Elas sempre diziam, fuja, e eu fugia – afinal eu também não estava emocionalmente estável.

Perdi a conta dos encontros, e de quantas vezes saí, entrei de novo, e saí novamente dos aplicativos. A última vez que baixei os fatídicos aplicativos foi num estranho 31 de dezembro – sentada a mesa da minha cozinha, com minha melhor amiga que fora morar no interior, ambas decepcionadas com nossas experiências pregressas, mais sábias e por mais louco que isso possa parecer – cheias de esperança. Eu tinha acabado de ‘tomar um pé na bunda’ de um dos caras mais loucos com quem já me relacionei, mas estava triste, me sentindo a cárie na boca do verme do cocô, do cavalo do bandido, preso na Dutra Ladeira. Pensava: como que esse cara (ESSE CARA) não quis ficar comigo? (Foi isso que pensei, julguem. É tópico para outro texto. Obrigada. De nada. Chama-se incompatibilidade).

Baixado os aplicativos; baixa a autoestima; baixada a guarda, tentei não baixar o nível. Afinal, sou uma mulher independente; inteligente e sou legal. Dei uma chance a um mané, que parecia muito legal, digo, compatível. Saímos duas vezes. Ele sumiu após cada uma delas. E sempre com o discurso de que “eu achei que você não tivesse gostado do date”... suspiros.

Foi assim, quando vi que um cardápio contém apenas informações superficiais; e que quase todo mundo que está num aplicativo de relacionamento está carente, sedento por algo, que resolvi sair. Eu estava abalada; precisando me sentir desejada, bonita. Precisava ter a esperança de que iria me relacionar de novo, renovada. Quando vi o quão desequilibradas as pessoas dali estavam, percebi que eu também era parte desse grupo: éramos um sanatório de carentes  cheios de tesão. Resolvi olhar para mim.

Resolvi me relacionar comigo. Olhar-me nos olhos. Acarinhar-me a carne. Contar-me piadas. Comprar-me livros, dos mais tolos aos mais densos. Percebi que não sou apenas divorciada, passada dos trinta, sem paciência e tempo para balada, e nem apenas uma mulher independente; inteligente e legal. Eu sou incrível. Um perfil com doze fotos e uma breve descrição não pode me definir. Não gosto de fast food. Na verdade, apesar de ter uma rotina corrida, não gosto de nada ‘fast’. Percebi o quão superficial eu me tornara para julgar as pessoas: eu tive um encontro de cerca de dez minutos, na hora do almoço, em frente ao meu trabalho.

Eu saí do Tinder, e do Happn, para nunca mais voltar – quando vi que não carecia de nada. Eu não estava mais carente. E cada vez que um ‘crush’ fazia a batida pergunta ‘o que você procura aqui?’ eu percebia que não sabia a resposta. Porque não tinha resposta. Eu simplesmente estava no lugar errado. Assim, ao perceber que lugar de peixe é na água, no oceano, e não na panela, que eu parti: sem crushes, sem matches. Nadando meus nadas e meus tudos por aí; na certeza de que se algum dia eu encontrar alguém com quem valha a pena me dividir, eu saberei, e ele também.  

domingo, 21 de abril de 2019

Nada

Nada. Foi um feriado prolongado recheado de nadas. Nenhum encontro; nenhuma ida a qualquer bar; nenhuma viagem; nenhuma festa. Nenhuma gaveta arrumada; nada de colocar o quintal em ordem; ou terminar uma leitura. Não visitei nenhuma amiga. Nem fiz nenhum procedimento de beleza. Não tive nenhum momento de tristeza; nenhum arrependimento ou mágoa. Nada me feriu, ou foi ferido por mim. Nada planejei, e nada realizei. E a culpa que sempre senti por estar quieta? Nada. Foi lindo ouvir meu silêncio; acolher-me pela manhã e olhar-me no espelho sem pressa, sem julgamentos. Foi tranquilizador não mandar, nem receber nenhuma mensagem de 'oi, sumido'. E ficar feliz porque tudo que tinha que sumir... Se foi. Precisei encher-me de mim, e o fiz quase como uma kamikaze. Transbordei sem limites, até esvaziar-me por completo, e lá, no meio do nada, deixe-me estar. E estive livre, leve, viva. Sem demandas. Sem julgamentos, nem pressões. Apenas um mulher que se permitiu. A cada experiência me vivencio como jamais imaginei. Não é preciso o outro. Nascemos sós, e é bom ficar assim. Precisamos sim de outras pessoas, mas não o tempo todo. Podemos querer estar com outras pessoas, mas nossa felicidade não deve depender disso. Abra-se ao nada. E ele te mostrará tudo.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Quando eu parti

Eu jamais a compreendi. Apaixonei-me por aqueles grandes e profundos olhos castanhos, sem nunca ter conseguido mergulhar em tamanha imensidão. Pareciam-me tristonhos, e parecia-me que podia alegrá-los. E sei que o fiz. Por alguns anos.

Olhamos, os olhos dela e os meus, para o mesmo horizonte, e talvez tenhamos esquecido de demorar-nos nos olhos um do outro, e por isso não tenhamos percebido o abismo que nos separava. Eu tinha meus pés cravados no chão, queria caminhar ao seu lado – e a ela só interessava voar. Queria puxar-me pelas mãos, conhecer as estrelas; tocá-las, sentir seus corpos fumegantes.

Queria arrastar-me consigo, e também todos os seus amigos. Preocupava-se e sofria com suas dores. Chorava suas lágrimas como se a dor daqueles que amava tivesse nascido em seu próprio peito. E como sempre amou demais, sempre sofreu demais.

Ela amava o doce de amendoim que eu comprava para ela; o porta moedas que alguém encontrou em um porão esquecido e resolveu presenteá-la; a música nova  que tocava na rádio, que eu nunca ouvira e que ela cantava a plenos pulmões, logo após o primeiro acorde. Amava o morador de rua e o batuque que ele fazia no ponto enquanto ela esperava o ônibus. Amava séries bobas de televisão e principalmente: as causas impossíveis. Amava tanto e todos que me impressionava como depois de tantos anos ela ainda conseguia me amar, quanto mais amava, mais parecia multiplicar.

Aos poucos foi dizendo menos o quanto me amava, deixando menos bilhetes pela casa, mas eu a surpreendia frequentemente com aqueles imensos olhos pousados sobre mim, preguiçosos, brilhantes, e sorridentes.

Eu deveria ter percebido que o fogo de seus cabelos era o fogo que ela trazia em sua vontade. Ela era incontrolável. Fazia o que queria, quando queria e como queria. Falava palavrões; mudava o cabelo num rompante, num dia que tinha ido ao centro da cidade apenas para uma consulta médica; falava que queria se tatuar novamente, e no dia seguinte já tinha no corpo um novo colorido.

Ela era brava como todo vulcão em atividade tem que ser, e ela corria de um lado para outro, em constante atividade, cada dia um algo novo, sua inquietude me inquietava. E com o tempo esse desassossego, tornou-se incômodo. Não é fácil morar ao lado de um monte quente, com possibilidade constante de explosão, calor, lava e até destruição.

Com nossas personalidades distintas, e sua infinita paixão, ela tentou se apagar. Queria caber onde eu pudesse estar. E se perdeu de si, e também de mim. A erupção tornou-se brasa fraca, e eu a via se diminuir cada vez mais para reacender a chama de um amor que não mais existia.

Meu amor já tinha outra morada. Sem dar explicações, eu parti. Sem olhar para trás, deixei-a – não soube fazer de outra forma. Já havia me queimado suficientemente, já carregava em mim as marcas, boas e ruins, que ela houvera causado. Sei que a marquei também. Espero que ela perceba que meu último ato, de aparente covardia e crueldade era necessário.

Espero que ela enxergue que meu desamor final foi o resultado de um amor que não cabia em mim, em nós: eu tentei, ela tentou, seguimos forçando caminhos paralelos, sem saber que nos cruzamos num dia, para depois nos afastarmos sem retorno. Não sei medir o quanto dela carrego em mim, e se gosto desse fardo, de ter partes de mim moldadas em suas forjas.

Espero que ela já não me odeie tanto, e que consiga perdoar-me por ter sido eu mesmo – afinal, estávamos lá, nós dois, o tempo todo e não nos vimos por querer demais. Fomos partes opostas, de um quebra-cabeça que não nos completava, quebrou-nos, e assim, um sem   o outro, partimos.

 

Dividamos

Categorizo-me como uma mulher heterossexual curiosa. Já beijei algumas meninas, mas a verdade é que a esperança de achar uma que me faça mudar de time me cega para o fato de que eu gosto mesmo é de me enroscar com 'os boy'. Apesar de não me sentir fisicamente atraída pelas 'mina' é com elas que compartilho as melhores experiências da minha vida: risadas, noitadas, porres, conversas sem censura. É com elas que compartilho o amor em sua forma mais bruta, e mais linda: a amizade.

Assim, sou uma heterossexual curiosa, com profundas tendências homoafetivas, ligadas a sororidade, empatia, admiração, e mais uma tonelada de atributos. Ainda com toda essa bagagem, me pego às vezes ouvindo música pop e sonhando com um boy pra chamar de meu. Critico-me até a pinta que tenho no segundo dedo do pé direito por isso, mas o que posso fazer, se fui criada e instruída para querer um benzinho para experimentar a vida ao meu lado; se meu corpo me manda sinais frequentes de que apenas a endorfina proveniente da alegria que minhas irmãs me trazem não será suficiente para suprir todas as minhas necessidades físicas?

Fiquei pensando no tal relacionamento bonitinho, e pensei: vai rolar não. Na cidade onde eu moro deve ter umas cinco mulheres, em sua maioria lindas, inteligentes, independentes e destemidas para cada homem. E eu podia parar nesse argumento. Acabou o texto.

Mas vou continuar. Desses homens, que já tem um séquito de cinco mulheres, do caralho, pra escolher, tem uns que a gente não pega nem a base de muita droga pesada: seja porque a gente já pegou, e não quer repetir a figurinha no álbum (tem uns que a gente quer fazer um álbum só dele, de tão 'credo, que delícia' que é); seja porque nossa amiga já pegou e levantou a ficha técnica do moço; seja porque ele votou 'naquilo que o gato faz e enterra' e repete todo um discurso de ódio que a gente repudia mesmo tentando ouvir com orelhinhas de amor. Enfim, tem os manos impegáveis. E tem também os impecáveis, que a mulherada toda quer. Inclusive a gente. Eles são tudões - inteligentes (não apenas intelectualmente, e principalmente emocionalmente); abertos ao novo, ao diálogo. Beijam bem, transam bem. Ligam no dia seguinte, respondem às nossas mensagens, mandam mensagem para falar de nada; acreditam no que a gente fala, não são prepotentes e portanto não se julgam mais informados sobre nós que nós mesmas: aceitam quando dizemos que estamos felizes, calmas e que não queremos beber ou transar ou sair. Ah, eles são sinceros e diretos, sem ser uns ogros.

Então é isso, um tanto de mina legal, pra uns quatro ou nove tudões. Mesmo sendo formada em letras, fiz os cálculos aqui, e vi que até com a margem de erro do Ibope, essa conta não fecha. Cada um vai ter que pegar pelo menos umas 1.349.

É isso amigas, vamos ter que começar a dividir os bofes. Sei que nossas mães nos ensinaram que deveríamos achar o amor de nossas vidas, e que nós seríamos o amor da vida deles também, e como um casal de pinguins, desfrutaríamos até o frio polar lado a lado, e felizes. De minha parte sou naturalmente monogâmica, nunca traí um ficantezinho sequer. Se tô sendo tratada com respeito e carinho; se não tentam me botar cabresto; me sentam no colo como a menina levada que sou, eu fico sossegada. Nem preciso ver o amado toda semana. Não preciso conversar todo dia. Tô de boa. Mas esse trem de monogamia é para almas velhas feito eu. Os tempos são outros, de poucas opções interessantes, de sustentabilidade, de Uber, de Airbnb, bicicletas e patinetes elétricos compartilhados, é época de parar de acumular e investir em experiências. A gente resiste, afinal toda novidade traz desconforto no início - e às vezes a adaptação se mostra infrutífera.

Confesso que para alguém que teve um relacionamento de cinco anos, e outro de onze - nesse eu dividi o bofe, mas sem saber - eu acho que estou até bem aberta. Logo que me vi fora de um relacionamento formal eu tive uma paixonite crônica, uma delícia. E ele era desses tudões, que a gente tem que dividir. Eu o dividia com outra mocinha, e não tinha problema nenhum com isso. Mas tive uma recaída pelo tradicionalismo - troquei tudão compartilhado por um amendoim exclusivo, me dei mal. Ainda não tinha me visto completa e sentia que precisava de uma parte que faltava em mim. É claro que o amendoim, teve uma colaboração em meu crescimento pessoal, trazendo-me um passo, ou seriam dois centímetros, mais perto desse momento - quando eu consigo enxergar um relacionamento aberto como possibilidade.

A grande sacada é que vejo hoje o respeito e o diálogo, características sempre essenciais em minhas relações, com olhos mais maduros. Vejo a realidade das relações modernas com mais clareza. Somos seres completos, universos que se expandem e se tocam - é com esses universos que quero dividir meu tempo e espaço, não me importando se tenho que dividi-los com outros universos não menos interessantes que eu. E mais uma vez eu digo, o mundo está cheio de mulheres fantásticas. Enquanto encerro esse texto, uma vozinha, agora quase um sussurro, o som de uma idosa que ainda sonha com o amor diz... Mas e se você achar um tudão tão preguiçoso para a conquista quanto você? E eu digo... Só vem.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Gentileza sobre rodas

No trânsito, pela manhã, dei a seta, chequei o retrovisor (raro momento em que me permito olhar pra trás) e mudei de faixa. Murphy atuou rapidamente - seta, retrovisor, retorno a faixa de origem. O motociclista, que vinha pelo corredor, e que estava em plena segurança, me certifiquei disso - gentilmente sacudiu os braços, de forma vigorosa, para me alertar - não resta dúvidas - que de acordo com o novo código nacional de trânsito veículos automotores de quatro rodas não podem mais mudar de faixa. Mandei uma chuva de beijos pra ele, e desejei que esse ser de luz tivesse um dia abençoado. Espero que ele tenha visto pelo 'espelhinho' enquanto se afastava apressado, zigzagueando entre os outros veículos. (Ps. Sem sarcasmo. True story.)

sexta-feira, 22 de março de 2019

Uma Nubia que chove

Hoje eu chovi. Parada no trânsito de uma sexta-feira molhada, enquanto as nuvens, tão EU em essência, choravam lá fora, eu derramei um pingo de chuva, que escorreu sorrateiro, trilhando os rasos vincos do meu rosto.

A chuva, e o choro de minhas irmãs NUBLADAS eram a anunciação de um novo tempo. Alerto que nem tudo que é novo é bom, mas admirar páginas novinhas em folha para semear palavras; ou um campo arado esperando a germinação é, para mim, particularmente inebriante.

Então, sem tentar conter a precipitação daquela lágrima, eu chovi amor. Um amor de gratidão por tudo que já vivi e amei, caminhos tortuosos que me trouxeram exatamente aqui, esse lugar onde não sei, onde não planejei, que não estava no mapa – nem no que tracei, nem no astral – nem nas instruções que me deram pelo trajeto. É AQUI, onde estou agora, a sombra de uma árvore, cansada – eu e a antiga e sábia árvore, ambas contemplativas, ambas esperançosas a admirar a mudança das estações, e as metamorfoses que, o simples passar do tempo, operam na gente. Claro que existem outros agentes, intempéries, gritos da natureza, e lenhadores que em sua rudeza nos moldam, nos quebram. Apenas nossos galhos, porque nossas raízes tão velhas, profundas, e firmes carregam nossa densa seiva essencial.

Enfraquecemos, parecemos mortas DIANTE DE TANTA VILANIA. CONTUDO, TÃO LOGO SOMOS deixadas para trás, a chuva nos lava, e leva tudo o que precisa, tudo o que sobra, tudo que não nos é essencial. E com o adubo daquilo que nos foi tirado, E DO QUE FOMOS UM DIA podemos brotar novamente – com nossas folhas, nossos aromas, novos frutos, novas sementes – costumeiramente mais fortes e frondosas apesar das marcas deixadas em nossa casca. AMO AS SEMENTES, QUE PODEM ALCANÇAR DIVERSOS SOLOS E FLORESCER EM TODO LUGAR EM QUE HÁ SOLO, CHUVA E UMA BRECHA. A semente é a afronta.

Olhei para dentro de mim, enquanto eu chovia e pensei que chovia de alegria, e que alegria, essa sim é minha essência. Portanto esse estado deve ser meu destino, e mais ainda, minha estrada. ONDE PODERIA ENFIM FLORESCER LIVREMENTE. Indaguei-me, então como fazer para estar lá.

Pensei em todas as rotas que me foram ensinadas ao longo da vida, e que, infelizmente, a maioria das pessoas que me serviam de norte, ou tentavam ser uma bússola, desconheciam o lugar ONDE EU DESEJO ESTAR: então vi, pela primeira vez, com a clareza de uma ensolarada manhã de verão, o significado real minha busca cotidiana – antes de concluir minha jornada quero viver na alegria, não apenas sobreviver . ANTES DE PARTIR QUERO experimentar A VIDA E CADA UM DE SEUS SABORES, SE NÃO TODOS, AO MENOS TODOS OS QUE TIVER A CHANCE; conhecer, RECONHECER, ME REIVENTAR QUANTAS VEZES FOR NECESSÁRIO.

Antes que a festa acabe, e ela vai acabar, quero experimentar todos os pratos; todos os drinks; ter-me com cada um dos convidados, conversar, rir e aprender com eles. Quero poder abraçar cada uma das pessoas que desfruta essa festa comigo, se possível demoradamente, e agradecê-los por terem vindo. Quero dançar ao som de todos os ritmos. Quero conhecer novas canções, novos artistas. Quero estar em cada um dos ambientes desse lindo e complexo evento que é a vida.

QUERO VIVER ESSA FESTA SEM ESTAR ENTORPECIDA, ANESTESIADA. QUERO DELEITAR-ME NESSA FARRA RODEADA POR PESSOAS DE BEM, COM QUEM EU POSSA DEIXAR MEU CORAÇÃO BATUCAR EM HARMONIA, UM SAMBA DE RODA – A RODA DA VIDA.

Olhei para mim, e vi minha inquietude, E ELA ME AQUIETOU – e a chuva trouxe um arco-iris, invertido, em forma de sorriso. Numa manhã chuvosa de sexta-feira eu me reencontrei. E me amei apaixonadamente, com a ânsia que apenas uma criança sedenta por descobertas pode ter. Eu quero viver tudo o que pode me edificar: quero aprender novos idiomas; e me comunicar com novas culturas; e conhecer novas pátrias e novos pares. Experimentar novos estados, e dar nova oportunidade aos velhos sentidos.  QUERO BEBER DESSA ÁGUA CORRENTE, E CORRER COM ELA, E SER ELA – OCUPANDO TUDO QUE POSSO, CADA ESPAÇO, MATANDO CADA SEDE, GERMINANDO CADA SEMENTE. DESAGUAR NO MAR QUE É SE AMAR.

cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...