segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Traumas e cicatrizes


Traumas e medos: cicatrizes que mesmo após a ferida ter secado, fechado e de fato ter parado de doer, latejam. Lembram-nos dor e do mal, nos fazem sentir pena de nós mesmos, caídos ao chão, com lágrimas nos olhos, após a queda da bicicleta, ou o carrinho maldosamente aplicado no futebol do clube, ou ainda depois ter sido abandonado por alguém que parecia nos amar.

Carregamos no corpo físico, e no emocional, lembretes de incontáveis  desacertos, e carregamos em nossos ombros culpas que muita vezes sequer são nossas. Por vezes poderíamos ter evitado certos enganos, mas as vezes os enganos parecem tão certos: as palavras são assertivas, o sorriso escancarado, a mão sempre estendida a esperar pela sua. E essa mesma mão que esperava a sua, ou deveria te embalar em uma dança, canções de ninar ou em papel celofane te empurra. Pode ser que seu corpo esteja firme e não caia, e pode ser que despenque do sétimo andar e se quebre em mil pedaços. Não importa.

Importa que os pedaços estejam lá, e você possa reconstruí-los. Depois de cada tragédia de nossa vida devemos escolher onde colocar nossos cacos. Podemos escondê-los embaixo do tapete, e nos machucar cada vez que pisarmos ali – lembrando de nosso sofrimento. Ou podemos pensar que é impossível fazer um mosaico com azulejos inteiros. Após a quebra podemos escolher como organizar nossos pedaços – mas não podemos colar-nos sozinhos: é preciso uma grande dose de amor próprio, mas apenas ele não basta. Precisamos nos deixar amar. O amor dos outros nos amolece, faz com que a cola pegue melhor. O processo fica mais fácil, divertido, amoroso.

Podemos reconstruir-nos e colorir-nos. Podemos cobrir nossas marcas com flores, e fazer de nossa história uma história em quadrinhos. Tornar-mos-nos um gibi. Tatuagens para colorir e suavizar as marcas que vida nos deixou. Não podemos escolher nossas batalhas e nossas derrotas, mas podemos escolher como elas nos marcarão: no caos, só podemos controlar a torrente que vem de dentro, e ela pode elevar como um balão de ar quente, ou afogar-nos como um submarino tomado pela água.

Por vezes, não é possível nos manter em pé – mesmo com amor vindo de dentro e de fora. Despencamos ao solo, ou somos jogados lá, por mais que tentemos resistir. Somos abandonados; ficamos doentes; a morte nos leva alguém que é parte de nós. É preciso deixar-nos no chão. Descansar. Permitir que nossa lágrimas molhem o chão, nos esvaziemos da dor. Do chão se pode ter uma perspectiva inteira do céu. Mas não podemos ficar lá para sempre. Descanse, jamais desista.

Os baixos precedem os altos, e a vida vai assim. Precisamos aprender a conviver com tudo, e não pensar apenas nas quedas – elas devem nos dar ‘embalo’ para que possamos subir. E se não subir é preciso perceber a mão que tenta nos erguer. É preciso perceber nosso valor, nos deixar sermos amados – e perceber que merecemos esse amor.

Podemos, ainda que quebrados, e colados mil vezes, ser a purpurina que ilumina o carnaval de alguém. O brilho em seus olhos e seu sorriso. Não porque que sejamos inteiros, perfeitos e igual ao outro. Mas por que na bagunça que é a vida sejamos um peça que combina com a outra. Um coração de azulejos quebrados, porém vibrantes, cuidadosamente colocado ao lado de um livro de poemas de amor – nem todos felizes, nem todos reais, possíveis e mansos – mas todos de amor.

               

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Percalços no Percurso

Reconhecer o problema: um pneu furado; um vazamento; uma porta emperrada. A conta no vermelho; a exaustão física; a diabetes; o excesso de peso e as roupas que já não servem mais.Ter um problema não é agradável. Significa que teremos que, de alguma forma, sair da programação normal e dedicar tempo e energia – às vezes dinheiro, para solucionar o problema.

Por vezes percebemos que o problema na verdade era o início da solução: recentemente a antena da minha internet queimou. Desde então não tenho wi-fi em casa. Entristece-me o fato de não assistir filmes, mas percebi que nem os assistia tanto; mas passo menos tempo na internet e mais tempo comigo mesmo quando estou em casa. O fim de meus relacionamentos sempre foi uma oportunidade para me reconhecer e me reconstruir, com o legado deixado e com a superação do rompimento. Tinha um problema – que não podia me definir e nem paralisar.

Mas existem problemas invisíveis aos olhos. Aquela pequena rachadura na parede. A pinta nas costas que não vemos. A gordura que se acumula nas coronárias. O hacker roubando suas informações. O débito em conta de um serviço que você não usa, e não percebe. O vazamento de olho do seu carro, ou o vazamento de gás silencioso e inodoro no quarto da pousada. Pequenos fatos, que podem se desdobrar em tragédias – aparentemente não previsíveis, mas se olharmos de perto, os sintomas estavam ali, miúdos, suaves.

Para vê-los é preciso encarar-se, sem maquiagem, com lupas potentes e sem medo do que pode surgir. Às vezes percebemos uma alma profundamente doente, agonizante. Às vezes apenas uma criança com medo. Por vezes um adolescente rebelde, e cheio de si. Podemos carregar um navio em nossas costas se não nos olharmos de frente e percebermos a estreiteza de nossos ombros, e a fragilidade de nossa força.  

Miro-me. Como talvez nunca tenha feito antes; enxergo-me além do riso fácil, dos olhos sinceros como lagos limpos e cobertos de folhas no outono. Vejo além das curvas de meu corpo, e das marcas que deixei e deixaram em mim. Sou um ser pulsante, em movimento, em evolução. Sigo, mas preciso saber de onde vim, e onde estou para tomar a estrada e parar de andar em círculos. É preciso saber para onde não quero voltar, e onde não quero me demorar.     

Quero deixar em uma pedra na beira da estrada, ou em uma vala qualquer, os sentimentos que me tiram o prazer da jornada rumo ao desconhecido. Quero deixar a mala pesada de pensamentos e raivas inúteis em algum lugar, e que eles parem de puxar para baixo meus ombros, e enterrar meus pés em paradas que não desejo. Quero deixar para trás a agressividade, o desejo de controlar cada grão de chão, para que, assim, não sujem meus pés. Quero parar de afugentar possíveis companheiros de viagem, e aproveitar a viagem juntos, assim como a aproveito sozinha.                

Quero perdoar-me por ter traçado caminhos que me afastaram do que há de mais bonito em mim, essa vontade de ser bicho – de ser fêmea, de cuidar e de deixar-me cuidar às vezes. Quero permitir-me. Permitir-me parar às vezes, e aproveitar a cama macia em uma estalagem qualquer, ou perceber as gotas grossas e frias da chuva, que doem ao tocar minha pele, mas que não a rompem, não me afogam, e que fazem brotar em mim as flores mais lindas.                

Quero seguir a estrada com leveza, percebendo seus buracos e pedras, seus declives e aclives, sua lama e sua poeira. Não quero deixar de ver nada, e quero saber aceitar com amor a sombra que protege ou que me nubla, permitindo que eu possa chover. Os problemas serão resolvidos a cada curva, a cada parada, e às vezes em movimento. Por vezes pode ser que eu precise ser rebocada, abandonada à margem por meus defeitos. Saberei ficar ali, sabendo deles, olhando para eles, tentando solucioná-los a medida que trilho o caminho tentando encontrar o melhor de mim.  

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Cada um tem seu tempo

Chamam de tempo, contudo eu ainda não consegui achar em meu vocabulário verbete para definir esse algo. Que pode se traduzir em tudo, ou em nada, dependendo do prazer que você desfruta ao vê-lo passar, se é que passa - ou nos é tomado.

Enfim, talvez eu o aprecie tanto por achá-lo raro, mesmo tanto tempo depois de ter ouvido que ele, o tempo, é o único bem realmente democrático: jovem ou velho, branco ou negro, japonês ou jamaicano - todos os seres humanos do mundo foram tocados com a maldição de ter apenas 24 horas por dia, e ter que dividir nelas, e apenas nelas, toda e qualquer porção de vida.

O tempo é deus que tudo sabe, está em tudo, e tudo pode. Ele é a cura para todas os males, e todas as dores. Com o passar do dias a dor da perda de um ser amado, cuja ampulheta derramou toda sua areia, torna-se saudade, sentimento manso de quem queria mais. Portanto o tempo também é o melhor remédio.

O tempo tudo governa. É nobre, é rei. Escasso, soberbo, imperativo. Nos dita regras e nos faz escolher.

E assim eu escolho passar meu tempo: acordo antes do sol, sem poder  saldá-lo. Não me posiciono com as mãos unidas em frente ao peito, não sinto seu calor me tomar, ao contrato: pulo da cama como um raio, corro do cansaço que divide a cama comigo, e tenta me segurar com seus cálidos dedos. Resisto aos cafunês e lambidas dos meus peludos que querem me convencer a mais um toque - como se eu não morresse  um pouquinho por ter apenas migalhas do meu dia a oferecer para eles - que se oferecem inteiros. Corro, mas não por esporte, e às 7:00, depois de   mais de 30 quilômetros percorridos, já estou no trabalho.  Há muitos dias que saio de casa às seis e retorno depois das vinte e duas.
Comprimo as horas no escritório, e o trabalho com ensino, com o trânsito e cerca de cinco horas de sono por noite. Sou responsável por mim 24 horas por dia e sete dias por semana. Supermercado, cachorro no veterinário, lavar, passar (que desperdício de tempo), cozinhar, estudar. Esforço para conseguir, e tenho hora marcada para tudo, como se tivesse várias fatias de tempo. Ledo engano.

Almoço no carro, engolindo uma fatia gordurosa de pizza, seguida de um chiclete de menta: as definições de refeição e higiene bucal foram atualizadas. Passo dias sem lavar os cabelos, e acabo tendo que inventar novos penteados, ou indo dormir com as madeixas molhadas. Acordo com uma capivara agarrada ao meu couro cabeludo. Mantenho roupas que não uso em meu armário, porque sei que duas semanas sem ligar a máquina de lavar, por falta de tempo, podem me custar mais do que o estilo: receio ter que ir de pijama pro trabalho, ou pior, enrolada em uma toalha.

Não sei como consigo colocar tantas coisas nessa sacola P,  com capacidade para vinte quatro horas - no sistema métrico, ou mil, quatrocentos e quarenta e quatro minutos, no sistema otimista; entretanto no meu milagre da multiplicação consigo três horas por semana para fazer Pilates e yoga - e vez o outra encontrar os amigos. Quando dou uma fatia de meu tempo a alguém, estou dando minha vida. É algo que poderia ser apenas meu, mas que decido dividir. Se aceitas meu presente, ele se torna passado, e quando vai,  não volta nunca mais.

Por tê-lo escasso ele é para mim mais valioso que um diamante. É comida no estômago de quem tem fome, água nos lábios de quem tem sede. É abraço pra quem tem medo. Fogo pra quem tem frio.
Se vejo-o desperdiçado, seja enquanto espero no dentista, ou me perco num congestionamento, me irrito em demasia.

Não suporto atrasos, perco-me de mim, pois perdi um pedacinho de minha vida esperando por alguém que certamente estava usando seu tempo para si, enquanto eu morria por uma hora. Tira-me a paz quando dizem que vem, mas não o fazem. Imagine só como é, então, deixar de se encontrar, na terapia ou diante de um espelho, para encontrar-se com alguém que não estará lá?!
Facada e sangue nos olhos me definem.

O tempo que se foi é como a água correndo pro mar, não voltará. Se ele se dobra, se é esburacado por caminhos de minhoca, se é inteiro? Isso eu aprendi na escola, mas jamais vi na prática - tal qual as matrizes da matemática.

Portanto peço, não tomes de mim o que não poderás devolver depois. Quebre-me porque posso refazer-me, mas não roubes meu tempo, porque assim tiras-me tudo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Sobre como me perdi

Eu preciso ter o controle. Essa é a verdade  nua e crua, e talvez feia, na qual tropecei recentemente. Essa auto-análise é produtivíssima para mim, e para todos nós, meros insetos, que buscamos a luz para então transcender. Sim, como meu pai me acusava desde outrora, sou controladora, um generalzão, nas palavras dele.

Agressiva. Na maior parte das vezes de forma passiva: ponho limites, invisíveis para mim, instransponíveis para outros, que impedem que se aproximem demais, vejam minhas fragilidades, meus medos, a nudez de minha alma. Rosno, e afugento, para que não precise morder.

Pragmática, prática, tento manter os pés cravados no chão. Esforço-me para me agarrar ao solo com o peso que carrego em meus ombros; com as memórias das dores que senti; curvo meus dedos dos pés para que eles se prendam a terra sob mim, e para que se lembrem de cada trombada em cada canto, de cada casa, de cada caso, em cada tropeço.

Talvez por isso evite drogas recreativas: preciso sentir-me firme, terrosa, lúcida. Não quero enganar-me, não mais. Desejo manter distante  a tristeza que me inspira a escrever compulsivamente, e move os artistas, dos melhores aos mais medíocres – enquadro-me no segundo grupo de não artistas fazedores de arte, no sentido amplo.

Assim sentia-me livre, na plenitude de mim mesma. Levando meus pés, então leves, nas direções para onde meu nariz apontava. Dona de mim. Senhora de minhas próprias dores, sabores, destinos. Responsável até mesmo, sentia eu, pelas batidas do meu coração: seu ritmo, sua melodia. Eu: pulsante e plena. Esquecia-me, já que estava no controle, de que era controladora, agressiva e pragmática.

E foi assim. Despreparada, com a guarda baixa de quem se acostumou com a estrada em linha reta, que fui pega em uma curva. A curva de uma mão que me chamava para dançar. O entorpecimento de um par de olhos que não percebeu o meu aviso de “don’t trespass”. Assim, fui pega distraída, e o esboço do meu sorriso foi com uma rachadura que faz despencar a represa sob a força da água. E ela invade todos os lugares.

Perdi-me. Tento cravar meus pés no solo, mas eles não estão mais lá. Ora flutuo sobre a água, ora sinto faltar-me o ar e pressionar-me o peito como se afogasse numa tsunami que simplesmente não posso compreender.  Não há pragmatismo que te mostre  o que fazer quando as ondas te tiram o pé de apoio, e você é jogado contra a areia, e se sente ridículo enquanto rola desengonçado, um espetáculo cômico para os espectadores que  se recusam a molhar os pés. Você caiu, se molhou, mas se diverte ao se entregar a supresa. Sinto-me assim.

Onde está sua agressividade de leoa agora? Pergunto-me. Entorpecida pela água que dentro de si transformou-se em vinho, e te embriaga. Tudo é riso, tudo gozo, e melodia. Em notas que você não entende, e não sabe nomear. Em sua língua tudo é explosão. E as ofensas que você então proferia para que não se aproximassem, parecem ter perdido significante e significado. Línguas mortas perdidas em dicionários amarelados em um sebo qualquer. Degusta agora apenas o momento. E que momento... bom seria se durasse ao menos uma eternidade.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Tudo em mim

Tudo em mim diz: cuidado, animal selvagem. Tento distanciar de mim qualquer um que não seja capaz de conviver, e quem sabe até admirar minha peculiaridade. Minha rotina atribulada só cabe quem tem a paciência de perceber que amo o que eu faço, e que tem a paciência de me esperar entre dias inteiros de trabalho. A quantidade exagerada de amigos diz que me relaciono, e que me dôo para quem se doa para mim. Apenas uma pessoa pode ter meu calor, que é fogo alto e constante; mas meu amor? Ah, esse se multiplica a medida que o semeio por aí.

Minha independência grita: não preciso de você, mesmo que nem sempre isso seja verdade, e às vezes eu me encolha sob minha estação de trabalho para chorar sozinha. Ou me sente no chão do banheiro enquanto o chuveiro lava as gotas de sal que banham meu rosto.

Meu cinco cães dizem que eu abdiquei do bom senso, que há pêlos por todo canto, e muito barulho: na minha casa, nas minha idéias,  no ritmo que bate meu coração. Não há silêncio em mim, não há muitos momentos de paz. É tudo correria e ansiedade. E elas se acumulam em torno dos meus olhos.

Meus olhos e as linhas que os cercam, coloridas pelas olheiras de quem fica acordada ouvindo o batuque do coração escrevem a clara mensagem: eu não tenho tempo para amenidades. Eu quero apenas o que valer a pena. Eu poderia cobrir o recado com grossas camadas de maquiagem ou procedimentos estéticos, mas gosto do que dizem e de como dizem. Maqueio-me com rubros batons, para dizer que meu coração é vivo, e que vou escrever-me por onde passar.

Meus cabelos? Expressão máxima de meu desdém para a opinião alheia. Eles berram a plenos pulmões: nossa beleza não cabe em padrões. Somos lisos, somos assimétricos, caímos para qualquer lado, e ela nos tira até quase pela raiz, como os dias fazem com seu sossego. Somos multicor, coloridos pela sensibilidade, pelo acaso, pela inexperiência.

Minhas curvas, gorduras localizadas e celulites sussurram,  apenas para ou ouvidos mais sensíveis, que guardo sob minha casca o que há de mais bonito: que sou toda amor e transparência. Sou intensidade e selvageria. Inteligência e delicadeza.

Sou um turbilhão cabendo em mim, e que não caibo em caixinhas, nas palmas de uma mão, nem um coração inseguro. Não sou para paladares simples. Misturo o doce e picante, e o amargor da vida me faz querer brindar.

Ar, sou furacão. Voe comigo, ou se destrua em minha força. Por isso tudo em mim é um convite a se afastar: poucos estão prontos para soltar as mãos e ascender, sabendo que podem não conseguir voar comigo, e que doloridos sofreremos: voarei novamente sozinha, enquanto o outro se observa sozinho ao chão. Mas se não se assustar voaremos como pipa, sem linha para prender, sem destino para chegar, remexendo toda poeira, retirando tudo do lugar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Apenas as lições

Aquela queda da escada. Um choque elétrico. Se afastar do seu primeiro melhor amigo porque ele se mudou para uma nova casa. Mudar de escola. Ser chamada de gorda pelas outras crianças.  Quebrar os dois dentes da frente. Ser molestada por dois meninos na rua – sofrer vários outros ataques ou tentativas ao longo da vida. Perder um animal de estimação, para a rua ou para a morte, e depois muitos outros. Magoar alguém que a gente ama. Ser rejeitada pelos meninos da escola por não se encaixar no padrão. Enfrentar as punições físicas de uma família conservadora. Perder seus avós. A primeira morte de um amigo jovem. Cachumba. Infecção intestinal. Piercing na língua. Perder a virgindade. Terminar um relacionamento com o primeiro grande amor da sua vida. Bater o carro. Estar num carro enquanto esse atropela um cachorro. Apendicite. Colocar o dispositivo intra-uterino. Torcer o pé. Bater o dedinho na quina da mesa de centro. Descobrir traições. Terminar um casamento com aquele que você achou que passaria o seu ‘felizes para sempre’ ao seu lado. Cair de cóccix no chão. Apertar o dedo na porta do carro. Ser demitido. Brigar com um amigo e perdê-lo para sempre. Insolação. Ver uma amiga sofrendo por perder seu grande amor. Ter a orelha parcialmente arrancada por um de seus cachorros. Primeira vez que se doa sangue. Cirurgia de correção de desvio de septo nasal. Infecção de urina. Pisar em pecinhas de Leggo. Depressão.

Essas foram algumas das dores que passei na vida. Dizem que o próprio ato de nascer representa um trauma, que o sofrimento é indizível. Não sei, porque não me lembro: só sei que nasci porque estou aqui agora, na frente de um computador escrevendo sobre isso: ou seria eu apenas uma representação dentro da Matrix?

 Assim, não poderia descrever com exatidão nenhum desses sofrimentos, porque deixaram de doer. Alguns me marcaram com cicatrizes, que também não doem  mais –  e verdade seja dita, prefiro esquecê-los. Dizem que é um mecanismo de defesa de nossos cérebros. Li uma vez que se uma mulher conseguisse armazenar a intensidade da dor de um parto, ela jamais teria um segundo filho. Exagerada que sou, eu provavelmente nunca mais me aproximaria de objetos fálicos só para não correr o risco de engravidar.

Apesar de ter superado todas as dores eu prefiro mesmo esquecê-las, e guardar apenas as lições que elas me ensinaram, dentre elas que: piercing sempre dói -  o que não me impediu de continuar pendurando coisas em meu corpo. Que a culpa nunca é da vítima, afinal eu tinha apenas seis anos de idade quando fui abordada por dois garotos de doze, e uns quatro anos quando um homem pelo menos trinta anos mais velho tentou me puxar para um banheiro durante um velório. Que os cães sempre irão atrás da bolinha da eternidade antes da gente, que vai doer, mas que a falta que farão  um dia não pode nos privar de uma vida, deles, de alegria e amor. Aprendi que devo sempre passar o máximo de tempo possível com quem amo, afinal nunca sabemos quando eles se transformarão em algo tão abstrato quanto a saudade.

A dor nos avisa que há algo errado, e que precisamos tomar alguma atitude para nos proteger e o calo parar de doer. Não gostaria, jamais de ser portadora da Síndrome de Riley-Day, doença catalogada, que tem como sintomas incapacidade de sentir dor e produzir lágrimas. Imagine-me sem chorar? Eu não me veria em mim. Além disso, já li que portadores da doença vivem menos.

Apesar de me sentir a vontade com as dores que já senti, e ser grata a tudo que me ensinaram,  opto por não relembrá-las. Elas me transformaram na mulher que sou, me guiaram pela estrada que percorri – mas não devo me apegar a poeira do que ficou para trás, nem parar e olhar o caminho que não posso mudar.

Não passo horas olhando as fotos dos meus avós. Não levei meu apêndice infeccionado para casa após a cirurgia de remoção. Evito falar dos meus cachorros, e outros pets, que já voltaram a ser poeira de estrela. Queimei as cartas e fotos do meu primeiro grande amor. Tento não guardar mágoas de quem me fez sofrer – e me faz feliz conseguir, e torcer para que eles sejam felizes também. Assim, fujo do que me faz lembrar da agonia passada, pego o aprendizado – um presente, e sigo rumo a um futuro que estou prestes a construir. Sou o tipo de pessoa que, se fosse cristã, não pensaria na cruz que fez sofrer meu salvador, guardaria sua imagem ressuscitada, seus milagres de multiplicação e amor. Todos brindados com o melhor vinho servido na Bodas de Caná. Sigamos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Foi você

'Gata, pare de romantizar seu sofrimento!' Eu digo para mim mesma enquanto me olho no espelho, de cima de um salto que me faz flertar com uma versão de mim mesma de quase 1,80m de altura; maquiagem ainda digna e um olhar claramente cansado.

Acho que tenho ouvido Beatles, Pearl Jam e outras canções que falam de amor em demasia. Essa lavagem cerebral sobre amores, dores, e reencontros. Essas melodias lindas, com letras que falam sobre paixões que dão errado, apenas para nos levar ao lugar certo, na hora certa, para que o acaso nos jogue nos braços do amor de nossas vidas me lobotomizaram.

Claro que além das canções de amor, existem filmes, livros, a vizinha que encontrou o amor aos 68 anos de idade, a prima de segundo grau da sua tia que achou o marido do ano num app de paquera.

E aí a gente vai acreditando que pode acreditar novamente no amor. E quando seu mini relacionamento chega ao fim - sim, ele era baixinho e vocês nem chegaram a pôr um nome nesse movimento de pegação - você acha que essa dor que você carrega no peito é por causa dele. Não é.

Você mudou seu método contraceptivo, e esse novo hormônio fez com que seu ciclo coincidisse com o de todas as suas amigas que não estão grávidas. Um mês com os hormônios mandando e desmandando em você; seu novo método contraceptivo te deu um cisto no ovário, que está te dobrando ao meio de dor, e te impedindo de praticar atividades físicas e dormir direito.

Você trabalha seis dias por semana , chegando a ficar 16 horas longe de casa e dos seus filhos peludos. Dorme no máximo - quando dorme muito e bem - seis horas por noite. Você está a menos de um mês do seu segundo mochilão pela América do Sul, e dessa vez, além de sua mochila, suas dúvidas e decepções, você levará uma amiga - ou será ela quem vai te levar?

Você lida com a frustração de não se exercitar direito; de não passar tempo de qualidade com sua família; de não ler todos os livros que gostaria; de não ter pego no seu violão sequer um vez apesar de pagar as aulas online; não lembra quando foi a última vez que fez uma sessão de depilação a laser; não arruma a cama há meses: ou dorme num ninho de edredons embolados ou sobre o cobre leito que você sequer tem forças para tirar.

Seus cabelos estão oleosos e marcados por elásticos que você usou para mantê-los domados. Você só se lembra de molhar as plantas quando elas murcham. Tem dia e hora marcados para tudo: supermercado, cozinhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar. Alguns alunos estão cancelando as aulas e o fantasma do arrocho financeiro volta a rondar sua porta.

Você que é responsável por si mesma, 24 horas por dia, sete dias por semana. Qual a importância dele nesse caos que é sua vida? Perceba, você não sofre pela falta dele - que era sim bom de cama e sabia o que era um Currículo Lattes, tocar violão e falar inglês.

Você sofre pela falta que você faz em sua própria rotina Ele entrou em sua casa, mas não em sua vida: você manteve as portas fechadas e sabe disso. Você não se entregou em momento algum, porque você quer ao seu lado alguém que não critique seu carro, seus hábitos, seu peso.

Você quer alguém que, além de ser bom de cama, seja simplesmente bom. Que te pergunte como foi seu dia e realmente se interesse pela sua resposta. Você deu chances a pessoas que não tinham carro, emprego, casa, roupas de marca, e nada disso te incomodou. O que incomodou foi a falta de empatia, de cuidado, de tesão, de sinceridade. E por isso você não está sofrendo por ele. Ele não tinha nada para te oferecer: tirando talvez a parte do tesão.

Você não sofreu por nenhum deles. Sofreu por você. Por correr dia e noite, e não esbarrar num amor que te traga paz e te faça companhia. É triste ser imensidão enquanto os outros são tão rasos.

Mas aguente firme mulher. Troque os discos. Sambe. Desça até o chão, mexendo o popozão. Vá ser feliz, fazer novos amigos, e se perder nos abraços e risos dos antigos. Quem sabe um dia conhecendo o mundo, o amor não se reconheça em você: e então depois de tanto desacreditar você será a irmã do amigo que encontrou o amor, em uma feira de adoção de animais abandonados do outro lado do mundo.

cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...