quarta-feira, 7 de março de 2018
Ticket to ride
terça-feira, 6 de março de 2018
Tatuagem sob a pele
A vida já havia marcado seu corpo de várias formas.
Era tão jovem, mas como quase toda fêmea, de quase toda espécie, já havia sido alvo de usos e abusos – era vista como mero objeto. Além dos toques lascivos em seu pequeno corpo desejado e apalpado, ela carregava hematomas agora invisíveis em sua superfície, porém eternos em sua mente. Marcas de um amor paternal aquebrantado, descontrolado, porém verdadeiro.
Ela não se importava com aquelas marcas, as carregava como cicatrizes de uma guerra contínua, a qual ela sobrevivera, até então, à todas as batalhas. Todavia, não se orgulhava delas, sabia que elas eram muito mais profundas que sua derme e que sua consciência, e que um dia, essas cicatrizes cobrariam com juros o preço por terem sido negligenciadas. Eram histórias para contar: após abertas, as feridas – tanto as do corpo quanto as da alma – devem ser lambidas sem descanso, devem tornar-se febre, dor, e um dia começarem fechar. Até que se transformem apenas na história – em cicatrizes claras ou sessões de terapia.
Cansada das marcas que a vida lhe dava, resolveu marcar-se também: com cores, traços, desenhos e a história que resolvia escrever. Tatuou seu corpo com dor, e com cor: a dor gostosa que antecede o gozo e que prova que a respiração ainda não parou; as cores que ela escolhia para pintar a própria vida – mostrando que podiam fazê-la sofrer, mas não podiam roubar-lhe o caminho.
Tomou gosto por suas escolhas, e cada marca era um sinal para o mundo de que ela era sobrevivente e que não deixaria de ser. Então o amor entrou em sua vida, e ela esqueceu os horrores da guerra: apegou-se a ilusão de que sempre haveria um colo, um abraço, uma mão para ajudá-la a se erguer. Os anos se passavam, as dores da alma causadas por seu sexo e por sua meninice deixaram de existir. Tornou-se confiante, e as marcas em seu corpo agora eram de mordidas e brincadeiras extasiantes.
Mas não há trégua que dure para sempre, e as cicatrizes que carregava dentro de si começaram a latejar a medida que o amor começou a abandoná-la, e com o piscar dos olhos a vida iludida já não existia mais: não havia mais colo, nem abraço, e a mão que deveria erguê-la afrouxou-se como um elástico velho. Foi deixada ali, por ele que sempre criticara as marcas em seu corpo, justamente aquelas das quais ela mais se orgulhava, aquelas que gritavam para o mundo: sou minha, e vou seguir sendo!
Sem saber, talvez até sem querer, ele tatuou na vida dela traços tão tortos e profundos que pintavam de preto até mesmo seus ossos. Seus olhos eram a dor estampada de agulhas desgastadas e enferrujadas. Toda sua pele era negror, tatuagens mal feitas, linhas de desamor.
Ela tratou de tratá-las para que parassem de doer: lambeu suas feridas abertas como um cão que gane baixinho após ser surrado; a febre tomou conta de cada célula do seu corpo, e a desorientou. Mesmo desorientada e quebrada seguiu sem se demorar no chão. Cada queda era um recomeço, apenas mais uma escoriação após ter sido cruelmente empurrada do quinto andar.
Agora segue cambaleante, com feridas semi fechadas e um coração partido – aberto para sentir-se vivo. Carrega esse coração na pele, para gritar ao mundo que mais uma vez ela sobreviveu, e que a dor que a marca hoje, amanhã será apenas mais um capítulo da história que escolheu escrever.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
Creme Brulee
Oi tudo bem, como você está?
Eu estou cansada, com sono. Estou com 34 anos, professora de inglês e servidora pública federal. Estou me recuperando da maior rasteira que a vida me deu. Estou gostando de aprender a tocar violão, fazer pilates, yoga, e outras coisas.
Estou, não sou. Tudo muda e a impermanência não foi só descrita por Buda e OSHO. Já ouviram falar de um cientista, pouco conhecido, chamado Charles Darwin que postulou o seguinte: o ambiente muda, e a gente tem que mudar também?
Adoro essa galera, mas confesso que às vezes sou um pouco resistente a mudança, o que me rotularia como menos apta a sobrevivência, e definitivamente isso não é algo que eu deseje. Portanto estou tentando aceitar de coração aberto as mudanças, afinal eu sei que sou capaz de conviver com elas.
Por exemplo, eu adorei uma cerveja Red Ale da marca Tupiniquim, delícia: uma cerveja bem maltada e equilibrada, com amargor diferenciado e prolongado, conjugado com um leve toque caramelado. Notas sutis de maltes torrados e herbáceas, com final amargo. Espuma densa ... delícia de novo. Mas poha... não encontro ela em qualquer lugar, e às vezes quando encontro, não estou financeiramente preparada para comprá-la. Adoro essa cerveja, mas não posso tomá-la com a freqüência que gostaria, então eu faço o quê? Definitivamente não vou sentar e chorar, mas vou olhar as outras opções que também me satisfazem e escolher uma delas, ou quem sabe experimentar algo novo e por fim descobrir que existem Red Ales ainda melhores que a Tupiniquim! No Carnaval, por exemplo, tentava achar vendedores que vendiam Eisenbahn, mas nem sempre encontrava, então tomava Budweiser, e se não tinha nenhuma opção eu ia de Brahma mesmo. Afinal eu queria beber cerveja. Se não achasse nenhuma que se encaixasse minimamente no meu padrão procuraria outra opção de bebida: vodka, cachaça – catuaba nunca mais, vez que foi a bebida que causou meu primeiro porre, e foi o assunto usado por meu primeiro namorado (o porre e a catuaba) para se aproximar de mim. Brincedeira: não guardo sentimentos ruins por meu ex namorado, já com a catuaba...
Temos que nos adaptar: é um perfume cuja produção foi descontinuada; um chocolate que teve sua receita alterada e já não é tão gostoso; uma casa que já não te cabe mais; uma roupa que você adorava e que já está fora de moda (pessoalmente eu pouco me importo com isso, e tenho uma calça de moletom com mais de 20 anos de amizade, já com um rombo no meio das pernas, que curto demais – vivam com isso!). Sei lá, esse planetinha vai mudando, e com ele coisas que amávamos, e consequentemente nós mesmos, que temos que aprender a conviver com a falta daquilo que amávamos e que nos definia.
Adiei muito o tornar-me vegetariana porque achava que não me adaptaria, e gostava muito do sabor da carne, até o dia que não consegui mais ignorar a dor do próximo: adaptei-me. Ainda sinto falta de umas coisas, tipo presunto e fígado com jiló; além da carne de panela da minha mãe e seus caldos de feijão e mandioca que têm mais carne que qualquer coisa. Mas me redescobri ao deixar isso para trás.
Recentemente o furacão passou por minha vida, e levou algo que eu acreditava que sempre estaria lá, mas eu sobrevivi, e estou me adaptando: novas cores, sabores e pseudo amores, que deviam me fazer bem, mas nem sempre fazem. A primeira vez que comi a trufa de chocolate com maracujá de uma marca aí, minhas papilas gustativa tiveram orgasmos múltiplos – foi uma orgia molhada em minha língua – mas mudou a receita, mudou o formato, mudou minha percepção. A decepção foi inevitável, mas mesmo assim eu insisti, até que percebi que aquela trufa não era mais a mesma, nem eu. Talvez um dia nos reencontremos, e nos entendamos novamente.
Tenho me permitido, e experimentado novos sabores, dentro dos quais tenho um favorito – mas que nunca está disponível: tipo sorvete de creme brulée. Daquelas delícias que só de pensar você saliva, o coração dá uma paradinha, e a vontade é mais forte que a dieta, que a sanidade. É tão bom que só queria ele: sorvete de creme brulée quando acordo; no café da manhã; às onze da manhã, no almoço; antes de dormir , ou melhor, ao invés de dormir. Mas nunca acho a poha do sorvete de creme brulee. Daí cansei de sofrer por abstinência, voltei ao menu da sorveteria e decidi experimentar novidades: e aqui estou eu de novo. Um pote na mão, diante de chocolate amargo; paçoca e alguns outros. Ainda torço para poder encontrar o meu favorito com mais facilidade, mas se é impossível, prefiro adaptar-me e evoluir. E que a vida me lambuze com suas mudanças e me faça seguir sem perder a doçura e a vontade.
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Apaixonar-se
Como alguém apaixonada por línguas – tanto as faladas quanto as que se soltam preguiçosas em beijos demorados – vivo a analisá-las. As primeiras mais frequentemente que as segundas. Poderia passa a vida lendo, ouvindo diversos sotaques, aprendendo novas expressões idiomáticas, estudando novos idiomas e como eles retratam a cultura, os conflitos, a história de um lugar e de um povo.
Sinto um prazer silencioso ao usar a expressão “fulano fala mais que o homem da cobra” e lembrar de um texto que li, e que explicava que esse homem que falava muito era alguém que emprestava dinheiro, e quando ele vinha cobrar de seus devedores, o homem da cobrança (o homem da cobra... assim como dizemos refri, facul, e outras palavras partidas ao meio) falava sem parar!
Expressões como saber algo ‘de cor’ que vem de saber algo ‘de coração’ assim como no inglês ‘by heart’ chegam a me arrancar suspiros apaixonados. Confesso que paixão é uma das minhas características mais marcantes. Já ouvi críticas de um ex por me dizer apaixonada por tudo: estou apaixonada por meus sapatos; apaixonada pelo meu ‘kindle’; apaixonada pelo cachorro que adotamos; apaixonada por essa nova comida; apaixonada por você.
Tudo bem, o.k (zero people killed in war today)... me apaixono facilmente, mas não sei ser diferente, apesar de entrar em frias glaciais por isso. Achei que depois da minha última decepção – ela já não é a última - nunca mais me apaixonaria, nunca mais ficaria ansiosa querendo ver alguém, esperando a mensagem ser visualizada e, com sorte (por favor!!!) respondida. Não tardou para eu me estabacar no chão novamante.
Acho o verbo ‘apaixonar-se’ em português meio sem gracinha, mas vale a pesquisa no sabichão: Paixão (do latim tardio passio -onis, derivado de passus, particípio passado de patī «sofrer») é um termo aplicado a um sentimento muito forte em relação a uma pessoa, objeto ou tema. A paixão é uma emoção intensa convincente, um entusiasmo ou um desejo sobre qualquer coisa. (Wikipedia que contou, viu?).
Depois de ver a etimologia até que eu gostei mais dela, porque acho que paixão é isso mesmo: SOFRER! É ficar se perguntando se o outro também te quer, quando ele vai te ver, até quando vai durar. É olhar o telefone durante horas, ver se ele está funcionando, travá-lo e destravá-lo de cinco em cinco segundos para saber se a pessoa leu seu recado, visualizou seu status, está com outra pessoa.
Apaixonar-se é usado no reflexivo porque, para mim, é um sofrimento que nos infligimos, não depende do outro – tanto que nos apaixonamos por grandes montes de adubo na esperança que um dia se transformem em flores. É quase como suicidar-se, matar-se aos poucos, de angústia, de vontade, sem respirar direito até que o outro te pegue nos braços.
Amo a expressão do inglês: fall in love. Apaixonar-se é queda, é tropeço, um segundo de desatenção e você não viu a pedra, caiu, bateu com a cabeça e não responde mais por seus atos. Você até tenta firmar as pernas e caminhar como se nada tivesse acontecido, mas a poeira do ‘amor’ gruda em você como o glitter que usamos no carnaval. Não há banho que resolva. Você troca a roupa de cama, de cidade, de país, limpa a casa, e quando se olha no espelho o glitter da paixão brilha na sua testa enquanto você relembra um sorriso, um beijo, ou simplesmente da pessoa atravessando a rua (paixão platônica para mim é demais – pronto falei!).
Cair no amor, despencar em queda livre, correndo o risco de se quebrar inteiro. Mas podendo também ter uma rede elástica lá embaixo que vai permitir que você se divirta sem hora para ir embora. Alerta de spoiler: a primeira opção acontece com mais freqüência, não vá achar que você é criativo se estiver sofrendo porque se apaixonou pela pessoa errada.
Mas o que a gente faz quando a paixão nos dilacera, ou simplesmente não nos faz mais feliz? Você pode escrever canções de sertanejo universitário, vestir uma calça justa, cantar com uma voz esganiçada e ficar milionário (melhor hipótese). Você pode sair por aí, experimentando boys magia, e boys lixo (ou gals...) e se apaixonar de novo, e de novo, e de novo (também acho essa uma opção legal porque num te deixa rico, mas deixa experiente). Há pessoas que preferem sofrer sem produzir nada de legal, além de lamentos na cabeça dos amigos, gemidos e tristeza – please, não seja esse ser. Ou você pode simplesmente, ahhhhhh sou apaixonada por essa expressão: FALL OUT OF LOVE! Assim como você tropeçou, e caiu no amor, você pode cair fora dele! Não é o máximo?
Spoiler alert de novo: não é tão fácil quanto parece. Caímos de amor por descuido, só caímos fora dele com muito esforço. Tem o gosto do beijo, o toque da mão, as melhores lembranças. A esperança de que tudo volte ao início; um recomeço.
Tem coração que dispara quando você pensa nele, escuta sua voz pausada no cantinho do seu cérebro. E quando você acha que está caindo fora, escorrega na casca de banana e cai de cara de novo: torcendo para que seja cara a cara com ele, em seus braços ou na sua cama. Apaixonar-se é queda livre, é não estar livre de um coração pesado que diz que ele vai partir a qualquer momento. E talvez por isso ele parta – partindo de novo seu coração.
domingo, 18 de fevereiro de 2018
13 reasons why (not).
E foi crescendo, crescendo, me absorvendo
E de repente eu me vi assim: completamente seu
Vi a minha força amarrada no seu passo
Vi que sem você não tem caminho, eu não me acho
Vi um grande amor gritar dentro de mim
Como eu sonhei um dia
E todo mundo admitia
Uma mudança muito estranha
Mais pureza, mais carinho
Mais calma, mais alegria
No meu jeito de me dar
Quando a poesia fez folia em minha vida
Você veio me contar dessa paixão inesperada
Por outra pessoa
Eu só quero que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um dom que eu tenho em mim
(Eu tenho sim)
Você me ensinou milhões de coisas
Tem um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Sexo
Mini crônica da paixonite crônica
Não consegues descobrir o QUANTO nem COMO ele de deseja de volta.
E como cereja do bolo, não sabes de fato O QUE queres... Apenas que é com ele!
cura
Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...
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SE VOCÊ TEM DEPRESSÃO, você não está sozinho. Em agosto de 2017 eu fui diagnosticada com depressão, após um ano tentando, sozinha, contorna...
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O que você responderia se um desconhecedor do vernáculo lhe perguntasse o significado da expressão “um cão chupando manga”? Pessoalm...
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E a gente segue quebrando a cara, em busca de um amor que more fora de nossos limites corporais; que atenda por um nome diferente daquele re...


