E chorou.
Não pela surpresa da decepção, mas porque permitira ser tratada como sempre
fora, mais uma vez, exatamente com havia sido todos os muitos anos que vivera
ali.
Que esperança
tola e infantil a levara a acreditar que teriam olhos que a vissem, e não que a
atravessassem. Que aqueles ouvidos a ouvissem, e não que dessem razão apenas ao
som seco do julgamento. Torpe tinha sido sua fé, que a levara a acreditar que
depois de tantos anos eles não a magoariam novamente, e que ela própria não permitiria
que aqueles gritos, e acusações açoitassem sua pele.
Talvez
estivessem certos, finalmente percebera: era burra, limitada, ou talvez apenas
ingênua e pueril – acreditar que as pessoas podem ser melhores, principalmente
sem desejar sê-lo.
Ali estava
ela, ofendida, chorosa – sentada ao chão, como a menina que havia sido anos
antes – esbofeteada (daquela vez literalmente), agora apenas na alma, sem o
abraço que sempre sonhou.
Sem o calor
que nunca lhe fora familiar. Pela ‘incontável’ vez prometeu-se não permitir
mais que lhe tratassem daquela forma. Pensou em encerrar-se ali, para não correr
o risco de errar de novo – mas optou por tatuar na pele de dentro do seu corpo,
e escrever para si um lembrete que dissesse: agora sim, nunca mais.
segunda-feira, 29 de junho de 2020
Nunca mais
terça-feira, 23 de junho de 2020
sábado, 30 de maio de 2020
HIATOS
quarta-feira, 6 de maio de 2020
Demônios e assombrações
domingo, 23 de fevereiro de 2020
Presente, lençol macio, suculenta ou filhotinho de cachorro?
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
A estrada
Era a oitava vez que ela pegava o celular para saber se havia alguma mensagem; um “oi”, uma misteriosa ligação perdida. Olhou novamente seu e-mail, aquele meio de comunicação tão comum anos antes, e que lhe parecia uma forma mais dele de dizer adeus, ou de pedir para voltar.
Nada. Nem carta; nem sinal de fumaça.
Ela chegou em casa, a porta estava trancada como no dia em que ele fora embora. Andou lentamente a casa inteira, até chegar ao quarto – onde encontrou apenas a cama desarrumada, sinal que ele de fato não havia passado por lá. Nem um bilhete de despedida. Nada. Sozinha ela olhou para o horizonte e pensou “então é assim que saímos da vida do outro”, e disse adeus.
Naquele exato momento ela entendeu que não importava como ela se sentia, e nem as razões que o fizeram querer partir – ele simplesmente quis, e não haveria nada mais doloroso que vê-lo amarrado a um lugar onde não desejava ficar: como loucos em um sanatório, onde jamais lhe sanarão as dores da alma; como um cachorro, a quem se chama de amigo, mas que se amarra em uma corrente, sob o sol, sob a chuva, comendo os restos que lhe foram jogados ao chão, ou em uma panela velha e sem alças.
Como a menina rica, deitada na macia e morna cama de seu quarto, mastigando doces agrados, mas que não pode ir ao parque com as amigas porque os pais têm medo de que seja sequestrada.
Nada pior que estar em um lugar que não é nosso. E ela disse adeus.
Foram tantas as despedidas. Em alguns casos eles apenas iam. Ela se perguntava, depois de dois dias esperando resposta a sua mensagem, se haviam morrido. "Talvez", era sempre sua resposta – sabia que fosse o que fosse, partida do plano mundano, ou apenas de sua vida – não havia nada que ela pudesse fazer. Fechava os olhos, e fazia uma prece, para que – fosse o que fosse – quem partiu estivesse em algum lugar melhor.
Em outros casos eles tentavam se explicar, ela ouvia, mas não havia razão mais linda e mais genuína que o humano desejo de partir – e partiam, mas sem partir seu coração. Por alguns dias ela se sentia pequena e insignificante; mala esquecida no canto do aeroporto. Abandonada, deixada em um lugar onde não a pudessem ver, onde ninguém a pudesse encontrar. Tomava o desejo do outro de seguir como algo pessoal - como se ela fosse tão importante assim, e o universo orbitasse em torno de seu umbigo.
Aos poucos foi percebendo que nada e tudo era como lhe parecia – não a estavam abandonando, estavam seguindo seu caminho – e não há nada mais lindo que ver alguém alçar novos voos. Partir rumo ao desconhecido, que lhe parece mais convidativo que o morno do sofá. A partida jamais fora um ataque pessoal contra quem ficou, mas uma tentativa de quem vai, um movimento da direção de se fazer mais felizes. Percebeu que as vezes eles partiam porque a estrada que ela trilhava, a de sua vida, era angulosa, movimentada, cheia de cruzamentos, festas, desastres, animais, restaurantes, cheia de bifurcações onde era necessário escolher. Dificil ser paralelo ali. Ela escolhia seu caminho, e às vezes sua rota a afastava deles. E estava tudo bem em ser assim.
Ela percebeu a cada vez que dizia adeus que seu coração não era uma gaiola onde pudesse prender as asas de alguém. Seu coração era galho frondoso, de árvore frutífera – nele, quem pudesse lidar com alguns espinhos e com a acidez de seus frutos, de aparência grosseira, como as doces lichias, poderia fazer ninho, mordada; poderia descansar brevemente; poderia recuperar-se das feridas de um longo voo migratório. Poderia até mesmo passar direto, sem perceber que ela era abrigo, afinal liberdade não é convite para ocupação.
Todos, um dia, partiriam (partirão). Cada um levando dela o que pudesse carregar – no fim, um pouco dela iria com eles. E um pouco deles ficaria com ela - inclusive a certeza de que quando se mete o pé na estrada, é porque carregamos conosco o desejo de explorar.
Despregou o olhar da janela, e olhou para o chão. Viu que carregava em sua bota os finos grãos da trilha que acabara de percorrer. Imprimira seus pés na estrada, mas a estrada, com seu fino pó também a mudara para sempre,
Sigamos, disse a si mesma, bem baixinho, para onde nos possamos encontrar
sexta-feira, 19 de julho de 2019
Há dias
Há dias em que não abre as janelas. Teme que lhe fujam as últimas forças; assusta-lhe a possibilidade que pule o corpo, mal conduzido por sua mente pérfida. Não as abre por medo de tocar-lhe o sol, espantar de sua pele o cheiro da tristeza, da mágoa mofada que carregou consigo durante as últimas semanas.
Há dias em que não cobre o rosto com pó e carmim. Receia que vejam a casca, e não seu interior profundo e quebrado, e colado. Colado tantas vezes que já não lhe sobram partes inteiras, é tudo junta, é tudo encontro, é tudo um pó metamorfo que, apesar de pó, inunda lhe as frestas – mas lembrem-se, não lhe cobre as rugas, nem as manchas.
Há dias que ela se entrega a cama, não porque não tenha mais forças – apenas por estar cansada. Fatigada de viver em sua pele, tão mal tratada, mal amada; excessivamente desejada – por motivos epiteliais, tão diferentes daqueles que carrega em suas tatuagens. Ela, que tanto ama, inclusive a si, não aceita que sua pele seja maior que sua alma, e que a julguem por isso. O presente é o que vem dentro do pacote, e para isso é preciso entrega, é preciso rasgar os papéis bonitos – é preciso receber.
Nesses dias, tudo fecha. Ela se vê nublada, trovoada, precipitação.
Há dias ela está assim, mas nesses dias ela é tempestade que não se segura, e passa avassaladora sem pedir licença, sem pedir desculpas – sem sentir essa culpa que tentam imprimir a ela. Nesses dias, ela se fecha, olha para dentro, para sua dor, e vê que aquele cisco que tanto a machuca já parece pérola, e será pérola – apesar de hoje apenas doer.
cura
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