sábado, 30 de maio de 2020

HIATOS

SEUS SILENCIOS SÃO TORMENTAS. 
E SEUS HIATOS SILENCIOSOS.
NÃO SEI O QUE SIGNIFICAM,
MAS PARA MIM DIZEM ABSURDOS.

MEUS ANSEIOS NÃO ROMPEM A DENSA FALTA
MAS ME RASGAM AO MEIO, 
CAMBALEIO ENTRE VERDADES E ILUSÕES
ENTRE MENSAGENS E INTERPRETAÇÕES

RELEIO. VERSOS, ESTROFES E OS ESPAÇOS DEIXADOS ENTRE ELES
NADA ME DIZEM,
MAS GRITAM TANTO E TUDO DENTRO MIM.
DRENAM-ME, CONFUNDEM-ME, PERTURBAM-ME.

ERROS GRAMATICAIS, PONTUAÇÕES FORA DO LUGAR
TUDO MUDAM, NADA COMUNICAM.
NÃO HÁ LICENÇA POÉTICA QUE EXPLIQUE A RUDEZ DESSES SILENCIOS POÉTICOS
QUE NÃO COMUNICAM, MAS FEREM A PÁGINA SEM SEQUER TOCÁ-LA.


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Demônios e assombrações


Existem casas assombradas. Lá, nem as aranhas querem tecer aquilo que lhes dá na teia. Os porões são trancados a sete chaves, as escadas de acesso foram queimadas, e suas janelas emparedadas. A mobília foi um dia destruída por cupins, e as velhas cortinas esfarrapadas pelo vento, que já não tenta arejar seus cômodos – nem as traças querem saber dos retalhos então deixados para trás.
            As manchas nas paredes contam histórias, as rachaduras e tantas outras marcas também. A água tenta insistentemente entrar, infiltra-se, lavar dali, de fora para dentro, ou de dentro para fora, todos os assombros, ainda que para isso, tudo tenha que destruir. Mas tudo está lacrado.
É no sótão que os segredos se amontoam, fantasmagóricos, insanos, amorfos. Encaixotados tão organizadamente que se esquece que eles estão ali. Ocultos como um vírus resistente, eles  tudo adoecem e destroem. São eles,  fantasmas deformados e também sem forma, que moram nos pensamentos mais recônditos. Pouco se lembra de como foram pousar ali.
            Em quais traumas pegaram carona para ali virem fazer morada, definitiva e destrutiva como uma doença incurável? Invadem cada pedaço de terra, mesmo que encobertos sob os tapetes outrora ricos, e hoje tão empoeirados, que sequer se diferem da madeira solta do assoalho.
            Lares assombrados, corpos possuídos por demônios que insistimos em carregar. Assomam-se pesados em nossos ombros, agrilhoam-se famintos em nossos tornozelos, alimentando-se de nosso falso senhorio. Fingimos que os controlamos, que podemos mantê-los em nossos cantos e caixas, mas são eles quem jogam dados com nosso descaminho. Não existe exorcismo quando estamos possuídos por nós mesmos. É a dor que nos arrasta as cadeiras; é o antigo sentimento de abandono que sopra o vento gelado, que não permite que a lareira seja acesa, que as mãos se aquecem, e que os pés deixem de ser frios.
            É a raiva presa, exilada em esquecido canil que se torna selvagem, e quase mortal. E para quem apontamos esta letalidade? Nossos fantasmas não morrem por inanição quando os guardamos, ignoramos, ou tentamos domá-los. Eles se tornam senhores vorazes, desgovernados – transformam-nos em carrascos de nós mesmos.
            Nossos demônios nos possuem, e pronto. Não os controlamos, e assim também eles não deveriam nos controlar, com suas unhas amareladas que se quebram ao se agarrar ao solo. Não. Tente controlá-los e eles te sugarão para um redemoinho em águas profundas de onde possivelmente você não conseguirá sair sem antes se afogar. Tire seus demônios para dançar, seus medos, suas mais animalescas emoções. Sim, convide-os todos para se sentarem contigo a sua mesa de jantar, sirva-as de boa comida e bom vinho, tire sua melhor louça do armário para servi-los, ou coma, sem cerimônias, com nuas mãos.
            Não esconda o que te assombra, vista-se com seus retalhos, enfeite-se com eles. Ao vento, o cheiro de mofo é menos opressor. Abra as portas do último andar, jogue fora o que conseguir, deixe ir. Espalhe as caixas que ficarem, o solo não vai ruir se você souber equilibrar todo esse peso que acumulou sem saber.
Escancare a tragédia que acontece entre suas paredes, negá-las não impede que ela aconteça diariamente e lhe roube o sono. Todos nós carregamos nossas posses e possessões, acumuladas, vividas, tatuadas em nossa carne.
Negue seus fantasmas e demônios, e eles lhe assombrarão para sempre, mesmo que ninguém os veja. Convide-os a sua mesa, a sua cama e eles deixaram de ser visita desagradável – serão  meras manchas brejeiras na madeira envelhecida da sala de estar.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Presente, lençol macio, suculenta ou filhotinho de cachorro?

Às vezes a gente diz que está sofrendo por amor, e a gente acredita nisso, de verdade. É físico. É avassalador, e é mentiroso. O sofrimento é real, mas o motivo é outro, jamais amor.

A gente sofre por ter sido abandonado, traído, trocado. A gente sofre por não ter sido valorizado. Por não ter na vida do outro o espaço que a gente abriu, a faca cega, para eles em nosso peito roto. E esse rasgo dói. Exige desapego, fé, esperança... E não na gente. A gente sabe o quanto é capaz de amar, eu, por exemplo, só sei amar infinito... Ou é assim, ou nada.

Então sei do tanto de amor que trago em mim, mas me questiono se o outro 'merece' algo tão... Meu, tão eu.  Vejo-me mergulhando, repetidamente, com tanto amor, em enxurradas lamacentas. Sofro.

 Travo uma batalha para me  convencer que o amor deveria ser livre, natural, portanto o distribuo, ou tento, para quem o faz brotar, mesmo sem entender se esse amor é só erva daninha. Vejo o amor florescer, e o ofereço. Observo o outro jogá-lo por terra, deixá-lo de lado. Deixar-me em qualquer canto.

E sofro. Não por amar, mas por não ser amada de volta. Amar alguém e não ser amado de volta é como dar um presente que o outro não quer. Pode ser o mais belo mimo, mas o outro pode simplesmente não o  querer.  A vó de uma amiga deu pra ela uma televisão, porque ela não tinha uma em casa: ela não tinha porque não queria. E mesmo sendo um presente bom, e caro, ela o devolveu. Ninguém é obrigado a querer o que temos pra oferecer, mesmo que seja o nosso melhor, o nosso amor mais macio, com cheiro de roupa de algodão recém lavada. Ou nossa suculenta mais linda, que precisa de menos água, e se espalha e floresce fácil. Ou um filhotinho de cachorro.

O amor que trago no peito é assim, fácil, e do tipo que quer que o outro seja feliz. Mas que em algum momento, queria poder ser feliz junto. Um filhotinho de cachorro.

Sofro por não poder deixar meu amor crescer, se espalhar, florescer. Ser trepadeira por todo canto. Desordenado. Mas esse amor é meu.

Não sofremos por amor, sofremos por não termos nossas vontades, sonhos e projeções saciadas. E às vezes é isso, às vezes você acredita, e acredita de novo, e dá o melhor de você a quem realmente não quer, ou não merece, porque existe sim um mínimo de reciprocidade para que você fique ali, tentando criar laços. Existe amor próprio. E o amor que você oferece ao outro não pode ser maior que o que você sente por você.
Mas o amor não é essencialmente o estabelecimento de laços. Ele é querer bem ao outro.
Então...

 Não deixe de fazer seus terrários, com plantas lindas porque não sabem admirá-los. Faça-os, ofereça-os. Ou deixe que esse amor enfeite seu jardim. Quem sabe um dia alguém que admire florestas não se aproxima, e faz entre suas folhas bagunçadas e selvagens morada.


Ame, e tente não se corromper quando não perceberem, ou não quiserem o que você traz de tão bonito. O mais belo poema russo jamais fará total sentido para mim, que não sei russo, e posso perder a onomatopeia mais linda por estar lendo uma tradução, e não estamos errados: nem eu, nem o poeta russo, nem suas palavras.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A estrada

Era a oitava vez que ela pegava o celular para saber se havia alguma mensagem; um “oi”, uma misteriosa ligação perdida. Olhou novamente seu e-mail, aquele meio de comunicação tão comum anos antes, e que lhe parecia uma forma mais dele de dizer adeus, ou de pedir para voltar.

Nada. Nem carta; nem sinal de fumaça.

Ela chegou em casa, a porta estava trancada como no dia em que ele fora embora. Andou lentamente a casa inteira, até chegar ao quarto – onde encontrou apenas a cama desarrumada, sinal que ele de fato não havia passado por lá.  Nem um bilhete de despedida. Nada. Sozinha ela olhou para o horizonte e pensou “então é assim que saímos da vida do outro”, e disse adeus.

Naquele exato momento ela entendeu que não importava como ela se sentia, e nem as razões que o fizeram querer partir – ele simplesmente quis, e não haveria nada mais doloroso que vê-lo amarrado a um lugar onde não desejava ficar: como loucos em um sanatório, onde jamais lhe sanarão as dores da alma; como um cachorro, a quem se chama de amigo, mas que se amarra em uma corrente, sob o sol, sob a chuva, comendo os restos que lhe foram jogados ao chão, ou em uma panela velha e sem alças.

Como a menina rica, deitada na macia e morna cama de seu quarto, mastigando doces agrados, mas que não pode ir ao parque com as amigas porque os pais têm medo de que seja sequestrada.

Nada pior que estar em um lugar que não é nosso. E ela disse adeus.

Foram tantas as despedidas. Em alguns casos eles apenas iam. Ela se perguntava, depois de dois dias esperando resposta a sua mensagem, se haviam morrido. "Talvez", era sempre sua resposta – sabia que fosse o que fosse, partida do plano mundano, ou apenas de sua vida – não havia nada que ela pudesse fazer. Fechava os olhos, e fazia uma prece, para que – fosse o que fosse – quem partiu estivesse em algum lugar melhor.

Em outros casos eles tentavam se explicar, ela ouvia, mas não havia razão mais linda e mais genuína que o humano desejo de partir – e partiam, mas sem partir seu coração. Por alguns dias ela se sentia pequena e insignificante; mala esquecida no canto do aeroporto. Abandonada, deixada em um lugar onde não a pudessem ver, onde ninguém a pudesse encontrar. Tomava o desejo do outro de seguir como algo pessoal - como se ela fosse tão importante assim, e o universo orbitasse em torno de seu umbigo.

Aos poucos foi percebendo que nada e tudo era como lhe parecia – não a estavam abandonando, estavam seguindo seu caminho – e não há nada mais lindo que ver alguém alçar novos voos. Partir rumo ao desconhecido, que lhe parece mais convidativo que o morno do sofá. A partida jamais fora um ataque pessoal contra quem ficou, mas uma tentativa de quem vai, um movimento da direção de se fazer mais felizes. Percebeu que as vezes eles partiam porque a estrada que ela trilhava, a de sua vida, era angulosa, movimentada, cheia de cruzamentos, festas, desastres, animais, restaurantes, cheia de bifurcações onde era necessário escolher. Dificil ser paralelo ali. Ela escolhia seu caminho, e às vezes sua rota a afastava deles. E estava tudo bem em ser assim.

Ela percebeu a cada vez que dizia adeus que seu coração não era uma gaiola onde pudesse prender as asas de alguém. Seu coração era galho frondoso, de árvore frutífera – nele, quem pudesse lidar com alguns espinhos e com a acidez de seus frutos, de aparência grosseira, como as doces lichias, poderia fazer ninho, mordada; poderia descansar brevemente; poderia recuperar-se das feridas de um longo voo migratório. Poderia até mesmo passar direto, sem perceber que ela era abrigo, afinal liberdade não é convite para ocupação.

Todos, um dia, partiriam (partirão). Cada um levando dela o que pudesse carregar – no fim, um pouco dela iria com eles. E um pouco deles ficaria com ela - inclusive a certeza de que quando se mete o pé na estrada, é porque carregamos conosco o desejo de explorar. 

Despregou o olhar da janela, e olhou para o chão. Viu que carregava em sua bota os finos grãos da trilha que acabara de percorrer. Imprimira seus pés na estrada, mas a estrada, com seu fino pó também a mudara para sempre, 

Sigamos, disse a si mesma, bem baixinho, para onde nos possamos encontrar

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Há dias

Há dias em que não abre as janelas. Teme que lhe fujam as últimas forças; assusta-lhe a possibilidade que pule o corpo, mal conduzido por sua mente pérfida. Não as abre por medo de tocar-lhe o sol, espantar de sua pele o cheiro da tristeza, da mágoa mofada que carregou consigo durante as  últimas semanas.

Há dias em que não cobre o rosto com pó e carmim. Receia que vejam a casca, e não seu interior profundo e quebrado, e colado. Colado tantas vezes que já não lhe sobram partes inteiras, é tudo junta, é tudo encontro, é tudo um pó metamorfo que, apesar de pó, inunda lhe as frestas – mas lembrem-se, não lhe cobre as rugas, nem as manchas.

Há dias que ela se entrega a cama, não porque não tenha mais forças – apenas por estar cansada. Fatigada de viver em sua pele, tão mal tratada, mal amada; excessivamente desejada – por motivos epiteliais, tão diferentes daqueles que carrega em suas tatuagens. Ela, que tanto ama, inclusive a si, não aceita que sua pele seja maior que sua alma, e que a julguem por isso. O presente é o que vem dentro do pacote, e para isso é preciso entrega, é preciso rasgar os papéis bonitos – é preciso receber.

Nesses dias, tudo fecha. Ela se vê nublada, trovoada, precipitação.

Há dias ela está assim, mas nesses dias ela é tempestade que não se segura, e passa avassaladora sem pedir licença, sem pedir desculpas – sem sentir essa culpa que tentam imprimir a ela. Nesses dias, ela se fecha, olha para dentro, para sua dor, e vê que aquele cisco que tanto a machuca já parece pérola, e será pérola – apesar de hoje  apenas doer.

terça-feira, 16 de julho de 2019

A corda acorda.

Eu dou corda para as pessoas, por que gosto de ver até onde elas têm a capacidade de chegar. Umas, para nosso alegria, chegam muito além do que esperávamos. Transformam-se, movem-se e evoluem, arrastando quem está ao seu redor consigo. Seja pelo exemplo, seja pelos cabelos. Gente do bem quer ir além, e levar todo mundo junto, para um lugar onde o mundo é de amor, de aceitação, respeito e individualidade, sem individualismo. Outras pessoas, por outro lado também chegam muito além do que esperávamos, indo mais profundo que o próprio fundo do posso. Chafurdando na lama apodrecida, se alimentando dela, e puxando para baixo quem quer que se aproxima para matar a sede. Eu dou corda - sempre. Serei alçada a novas alturas; puxada para baixo; poderá haver um duro e embativo 'cabo de guerra' ou verei a pessoa se enforcar no próprio emaranhado. Se for arrastada para um novo patamar, serei grata. A força desprendida por quem nos quer por perto é extrema. Segurar a mão do outro e puxa-lo pra cima é um ato de bravura, de amor e de força, que só quem está mais que comprometido com dias melhores pode realizar. Podem puxar-me para baixo, e como já dizia minha avó, para baixo todo santo ajuda. Mas meus pés, eles estão cravados no chão. Cientes de sua força, de minhas garras e da concretude do chão sob minha pele. Derrubar-me já não é tão fácil assim. O cabo de guerra pode ser interessante, puxa de um lado, puxa do outro. Se houver equilíbrio podemos ficar bem ali, sem o conforto que nos torna fracos. No cabo de guerra vai haver combate, mas pode haver colaboração. Há fortalecimento e a noção real de sua força e do quanto você está apto a ceder. É divertido, é intenso, é força bruta. Mas meu lado humano gosta muito de dar corda e ver o outro se perder, ou se revelar em suas teias de mentiras. Eu finjo acreditar em nomes, histórias, abstrações. Eu sorrio e me visto da boa moça que de fato eu sou: mas nem todo mundo merece o meu melhor, não é mesmo?! A esses dou a corda para que se enforquem, fantasmas vazios que sempre serão.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Vê dois quilos de picanha porque hoje eu vou me esbaldar

Eu ando triste, e sempre que esse sentimento encontra morada em mim eu faço o exercício de tentar encontrar a parte que me cabe nesse caos. Não encontro, porque não há como evitar o que vem do outro. Somos responsáveis por nossos atos, e nossas expectativas, mas não há jeito bonito de falar de assédio, e é isso que me tem entristecido.

Sofri minha primeira tentativa de abuso aos 4 anos, quando, em um velório, um homem bêbado tentou me puxar para dentro de um banheiro. Fui salva por minha mãe, que sem palavras segurou o meu outro braço e, ainda calada, me arrastou para longe dali.
Aos 6 fui assediada, a 200 metros de casa, por dois garotos com o dobro da minha idade. Aos 9, na escola, após ter tido minha bunda apertada por um garoto mais velho, no caminho para o bebedouro, tive que ouvir a professora, a quem me reportei, dizer que eu tinha provocado.

Aos 13, no caminho pra escola, fui mais uma vez apalpada por um estranho. Triste. Ultrajante. Dilacerante. E ainda assim, sou grata por não ter tido experiências piores. Né?!

Mas essas situações teriam ficado no passado, se de fato tivessem ficado no passado. Aqui, de onde eu me olho agora eu sou uma mulher, sem grandes atributos: nada de ser a mais linda, nem a mais gostosa, nem sexy, nem a mais abusada... Nada. Talvez eu seja divertida, a que fala alto demais, beirando a esquisitice, a que tem um comentário pra quase tudo. E é assim que quero ser.

Portanto, mesmo que a sociedade quisesse me culpar, como segue culpando vítimas - por seus vestidos curtos, por estarem bêbadas, por serem bonitas demais, ousadas demais, mulheres demais - não poderia. Sou muito fora de padrão pra encaixar.

Importante ressaltar: vítimas de assédio e abuso só existem por que existem assediadores e abusadores, e não o contrário.

Apesar de saber disso, e lutar pelo direito de sair por aí vestida como eu quiser, tenho me escondido dentro de roupas largas, tênis baixos e camisetas de malha. Usado pouca maquiagem. Quase tudo em mim grita: me deixe em paz. Outro dia me perguntaram a razão para meu corte de cabelo, e a verdade é que eu o corto assim para evitar, pelo menos um pouco, a aproximação de homens babacas. Funciona, às vezes.

Menos do que gostaria, é verdade. Hoje, de dentro de um jeans desbotado, uma camiseta surrada e camisa de flanela amarrotada - além da linda combinação de alpargatas e meias de pilates, a cara de ressaca e sem maquiagem, tive que ouvir de um 'nem sei como nomear' gracejos quanto a minha aparência. Ele faz isso há anos. Chama de linda com a cara de quem me arranca a roupa, só com o olhar, e principalmente quando dou o azar de esbarrar com ele no elevador, ou sozinha em um corredor. Hoje eu disse 'dá para parar?' e segui meu curso.

Depois de 16 anos entre um relacionamento e outro, e agora, assumidamente em carreira solo, perdi a conta dos assédios sofridos. E não importa minha reação: se eu xingo, se ignoro, se mudo o caminho, ou as roupas que visto. Se corto meu cabelo, ou se assumo meus quilos extras: eu estou sozinha, sem um homem a quem os abusadores tenham que respeitar.

Os pseudo elogios que eu ouvia na rua, agora surgem escondidos das esposas nas festinhas, nas mídias sociais, em corredores, no meu próprio celular. Afinal, eu estou disponível, e meu 'homem' não se enraivecerá se sua propriedade for um pouco... Dilapidada.

E o assédio tem esse poder de nos manter caladas, envergonhadas, entristecidas. Com medo de gritar aos quatro cantos do mundo e ser julgada e condenada de pronto: seja pela esposa, pela professora, ou pela tia que vai dizer - mas cê tá sozinha, que mal tem? Deixe ele falar, ele estava só te elogiando. Ah minha filha, cê nem é tão bonita assim, tá querendo é aparecer.

O assédio carrega com ele o conflito de homens que podem tudo, e mulheres que se calam, e muitas vezes se julgam entre si. E pra piorar, além da tristeza por ser vista, desde os 04 anos meramente como um pedaço de carne a ser consumida, eu carrego em mim uma raiva latente, e crescente por todas as vezes que fiquei calada, enquanto um chefe me chamava na sala dele pra me dar um chocolate, que eu descartava na sequência, e dizia: não conte para ninguém, tá?! Todas as vezes que um conhecido me olhou dos pés a cabeça e teceu comentários sobre meu vestido, minhas pernas, ou o quanto o 'cara' que  me 'pegava' não estava a minha altura. E como chovem homens puxando papo nas redes sociais, cinco minutos depois de eu ter comentado algo sobre sexo.

Sim, não é porque o assédio é horrível em todas as searas possíveis, e que eu tenha penado com episódios e mais episódios dele em minha vida que eu não goste de sexo. Apesar de assédio estar ligado a sexualidade, a gênero e a perceber o outro como caça, eu não me traumatizei nesse nível.

E sei que posso fazer o que quiser com meu corpo - e faço. Mas 'o que quiser' é o que EU quiser, e não o babaca, que acha que meu corpo deve ser protegido, mandando, regulado e usado por homens.

Tá ruim ser mulher, tá horrível andar por aí cercada de outras mulheres tão raivosas e tristes como eu, por estarmos cercadas por uma sociedade machista, reacionária, em declínio e por isso mesmo apavorada e agressiva. Sei que tivemos avanços, mas nunca vi tantas mulheres de fibra sendo diminuídas e quebradas de dentro para fora, e também de fora para dentro. Nos sentimos aprisionadas, perdidas feito Alices em um país, em um planeta, em uma realidade sem tantas maravilhas assim.

E no fim, ainda temos que ouvir: tá brava, deixe eu cuidar disso pra você! E sem perder o réu primário vamos seguindo, tentando nos proteger, sem matar e sem morrer. Sendo ridicularizadas, reduzidas, e sem saber o que fazer.

cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...