quarta-feira, 6 de maio de 2020
Demônios e assombrações
domingo, 23 de fevereiro de 2020
Presente, lençol macio, suculenta ou filhotinho de cachorro?
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
A estrada
Era a oitava vez que ela pegava o celular para saber se havia alguma mensagem; um “oi”, uma misteriosa ligação perdida. Olhou novamente seu e-mail, aquele meio de comunicação tão comum anos antes, e que lhe parecia uma forma mais dele de dizer adeus, ou de pedir para voltar.
Nada. Nem carta; nem sinal de fumaça.
Ela chegou em casa, a porta estava trancada como no dia em que ele fora embora. Andou lentamente a casa inteira, até chegar ao quarto – onde encontrou apenas a cama desarrumada, sinal que ele de fato não havia passado por lá. Nem um bilhete de despedida. Nada. Sozinha ela olhou para o horizonte e pensou “então é assim que saímos da vida do outro”, e disse adeus.
Naquele exato momento ela entendeu que não importava como ela se sentia, e nem as razões que o fizeram querer partir – ele simplesmente quis, e não haveria nada mais doloroso que vê-lo amarrado a um lugar onde não desejava ficar: como loucos em um sanatório, onde jamais lhe sanarão as dores da alma; como um cachorro, a quem se chama de amigo, mas que se amarra em uma corrente, sob o sol, sob a chuva, comendo os restos que lhe foram jogados ao chão, ou em uma panela velha e sem alças.
Como a menina rica, deitada na macia e morna cama de seu quarto, mastigando doces agrados, mas que não pode ir ao parque com as amigas porque os pais têm medo de que seja sequestrada.
Nada pior que estar em um lugar que não é nosso. E ela disse adeus.
Foram tantas as despedidas. Em alguns casos eles apenas iam. Ela se perguntava, depois de dois dias esperando resposta a sua mensagem, se haviam morrido. "Talvez", era sempre sua resposta – sabia que fosse o que fosse, partida do plano mundano, ou apenas de sua vida – não havia nada que ela pudesse fazer. Fechava os olhos, e fazia uma prece, para que – fosse o que fosse – quem partiu estivesse em algum lugar melhor.
Em outros casos eles tentavam se explicar, ela ouvia, mas não havia razão mais linda e mais genuína que o humano desejo de partir – e partiam, mas sem partir seu coração. Por alguns dias ela se sentia pequena e insignificante; mala esquecida no canto do aeroporto. Abandonada, deixada em um lugar onde não a pudessem ver, onde ninguém a pudesse encontrar. Tomava o desejo do outro de seguir como algo pessoal - como se ela fosse tão importante assim, e o universo orbitasse em torno de seu umbigo.
Aos poucos foi percebendo que nada e tudo era como lhe parecia – não a estavam abandonando, estavam seguindo seu caminho – e não há nada mais lindo que ver alguém alçar novos voos. Partir rumo ao desconhecido, que lhe parece mais convidativo que o morno do sofá. A partida jamais fora um ataque pessoal contra quem ficou, mas uma tentativa de quem vai, um movimento da direção de se fazer mais felizes. Percebeu que as vezes eles partiam porque a estrada que ela trilhava, a de sua vida, era angulosa, movimentada, cheia de cruzamentos, festas, desastres, animais, restaurantes, cheia de bifurcações onde era necessário escolher. Dificil ser paralelo ali. Ela escolhia seu caminho, e às vezes sua rota a afastava deles. E estava tudo bem em ser assim.
Ela percebeu a cada vez que dizia adeus que seu coração não era uma gaiola onde pudesse prender as asas de alguém. Seu coração era galho frondoso, de árvore frutífera – nele, quem pudesse lidar com alguns espinhos e com a acidez de seus frutos, de aparência grosseira, como as doces lichias, poderia fazer ninho, mordada; poderia descansar brevemente; poderia recuperar-se das feridas de um longo voo migratório. Poderia até mesmo passar direto, sem perceber que ela era abrigo, afinal liberdade não é convite para ocupação.
Todos, um dia, partiriam (partirão). Cada um levando dela o que pudesse carregar – no fim, um pouco dela iria com eles. E um pouco deles ficaria com ela - inclusive a certeza de que quando se mete o pé na estrada, é porque carregamos conosco o desejo de explorar.
Despregou o olhar da janela, e olhou para o chão. Viu que carregava em sua bota os finos grãos da trilha que acabara de percorrer. Imprimira seus pés na estrada, mas a estrada, com seu fino pó também a mudara para sempre,
Sigamos, disse a si mesma, bem baixinho, para onde nos possamos encontrar
sexta-feira, 19 de julho de 2019
Há dias
Há dias em que não abre as janelas. Teme que lhe fujam as últimas forças; assusta-lhe a possibilidade que pule o corpo, mal conduzido por sua mente pérfida. Não as abre por medo de tocar-lhe o sol, espantar de sua pele o cheiro da tristeza, da mágoa mofada que carregou consigo durante as últimas semanas.
Há dias em que não cobre o rosto com pó e carmim. Receia que vejam a casca, e não seu interior profundo e quebrado, e colado. Colado tantas vezes que já não lhe sobram partes inteiras, é tudo junta, é tudo encontro, é tudo um pó metamorfo que, apesar de pó, inunda lhe as frestas – mas lembrem-se, não lhe cobre as rugas, nem as manchas.
Há dias que ela se entrega a cama, não porque não tenha mais forças – apenas por estar cansada. Fatigada de viver em sua pele, tão mal tratada, mal amada; excessivamente desejada – por motivos epiteliais, tão diferentes daqueles que carrega em suas tatuagens. Ela, que tanto ama, inclusive a si, não aceita que sua pele seja maior que sua alma, e que a julguem por isso. O presente é o que vem dentro do pacote, e para isso é preciso entrega, é preciso rasgar os papéis bonitos – é preciso receber.
Nesses dias, tudo fecha. Ela se vê nublada, trovoada, precipitação.
Há dias ela está assim, mas nesses dias ela é tempestade que não se segura, e passa avassaladora sem pedir licença, sem pedir desculpas – sem sentir essa culpa que tentam imprimir a ela. Nesses dias, ela se fecha, olha para dentro, para sua dor, e vê que aquele cisco que tanto a machuca já parece pérola, e será pérola – apesar de hoje apenas doer.
terça-feira, 16 de julho de 2019
A corda acorda.
terça-feira, 2 de julho de 2019
Vê dois quilos de picanha porque hoje eu vou me esbaldar
Eu ando triste, e sempre que esse sentimento encontra morada em mim eu faço o exercício de tentar encontrar a parte que me cabe nesse caos. Não encontro, porque não há como evitar o que vem do outro. Somos responsáveis por nossos atos, e nossas expectativas, mas não há jeito bonito de falar de assédio, e é isso que me tem entristecido.
Sofri minha primeira tentativa de abuso aos 4 anos, quando, em um velório, um homem bêbado tentou me puxar para dentro de um banheiro. Fui salva por minha mãe, que sem palavras segurou o meu outro braço e, ainda calada, me arrastou para longe dali.
Aos 6 fui assediada, a 200 metros de casa, por dois garotos com o dobro da minha idade. Aos 9, na escola, após ter tido minha bunda apertada por um garoto mais velho, no caminho para o bebedouro, tive que ouvir a professora, a quem me reportei, dizer que eu tinha provocado.
Aos 13, no caminho pra escola, fui mais uma vez apalpada por um estranho. Triste. Ultrajante. Dilacerante. E ainda assim, sou grata por não ter tido experiências piores. Né?!
Mas essas situações teriam ficado no passado, se de fato tivessem ficado no passado. Aqui, de onde eu me olho agora eu sou uma mulher, sem grandes atributos: nada de ser a mais linda, nem a mais gostosa, nem sexy, nem a mais abusada... Nada. Talvez eu seja divertida, a que fala alto demais, beirando a esquisitice, a que tem um comentário pra quase tudo. E é assim que quero ser.
Portanto, mesmo que a sociedade quisesse me culpar, como segue culpando vítimas - por seus vestidos curtos, por estarem bêbadas, por serem bonitas demais, ousadas demais, mulheres demais - não poderia. Sou muito fora de padrão pra encaixar.
Importante ressaltar: vítimas de assédio e abuso só existem por que existem assediadores e abusadores, e não o contrário.
Apesar de saber disso, e lutar pelo direito de sair por aí vestida como eu quiser, tenho me escondido dentro de roupas largas, tênis baixos e camisetas de malha. Usado pouca maquiagem. Quase tudo em mim grita: me deixe em paz. Outro dia me perguntaram a razão para meu corte de cabelo, e a verdade é que eu o corto assim para evitar, pelo menos um pouco, a aproximação de homens babacas. Funciona, às vezes.
Menos do que gostaria, é verdade. Hoje, de dentro de um jeans desbotado, uma camiseta surrada e camisa de flanela amarrotada - além da linda combinação de alpargatas e meias de pilates, a cara de ressaca e sem maquiagem, tive que ouvir de um 'nem sei como nomear' gracejos quanto a minha aparência. Ele faz isso há anos. Chama de linda com a cara de quem me arranca a roupa, só com o olhar, e principalmente quando dou o azar de esbarrar com ele no elevador, ou sozinha em um corredor. Hoje eu disse 'dá para parar?' e segui meu curso.
Depois de 16 anos entre um relacionamento e outro, e agora, assumidamente em carreira solo, perdi a conta dos assédios sofridos. E não importa minha reação: se eu xingo, se ignoro, se mudo o caminho, ou as roupas que visto. Se corto meu cabelo, ou se assumo meus quilos extras: eu estou sozinha, sem um homem a quem os abusadores tenham que respeitar.
Os pseudo elogios que eu ouvia na rua, agora surgem escondidos das esposas nas festinhas, nas mídias sociais, em corredores, no meu próprio celular. Afinal, eu estou disponível, e meu 'homem' não se enraivecerá se sua propriedade for um pouco... Dilapidada.
E o assédio tem esse poder de nos manter caladas, envergonhadas, entristecidas. Com medo de gritar aos quatro cantos do mundo e ser julgada e condenada de pronto: seja pela esposa, pela professora, ou pela tia que vai dizer - mas cê tá sozinha, que mal tem? Deixe ele falar, ele estava só te elogiando. Ah minha filha, cê nem é tão bonita assim, tá querendo é aparecer.
O assédio carrega com ele o conflito de homens que podem tudo, e mulheres que se calam, e muitas vezes se julgam entre si. E pra piorar, além da tristeza por ser vista, desde os 04 anos meramente como um pedaço de carne a ser consumida, eu carrego em mim uma raiva latente, e crescente por todas as vezes que fiquei calada, enquanto um chefe me chamava na sala dele pra me dar um chocolate, que eu descartava na sequência, e dizia: não conte para ninguém, tá?! Todas as vezes que um conhecido me olhou dos pés a cabeça e teceu comentários sobre meu vestido, minhas pernas, ou o quanto o 'cara' que me 'pegava' não estava a minha altura. E como chovem homens puxando papo nas redes sociais, cinco minutos depois de eu ter comentado algo sobre sexo.
Sim, não é porque o assédio é horrível em todas as searas possíveis, e que eu tenha penado com episódios e mais episódios dele em minha vida que eu não goste de sexo. Apesar de assédio estar ligado a sexualidade, a gênero e a perceber o outro como caça, eu não me traumatizei nesse nível.
E sei que posso fazer o que quiser com meu corpo - e faço. Mas 'o que quiser' é o que EU quiser, e não o babaca, que acha que meu corpo deve ser protegido, mandando, regulado e usado por homens.
Tá ruim ser mulher, tá horrível andar por aí cercada de outras mulheres tão raivosas e tristes como eu, por estarmos cercadas por uma sociedade machista, reacionária, em declínio e por isso mesmo apavorada e agressiva. Sei que tivemos avanços, mas nunca vi tantas mulheres de fibra sendo diminuídas e quebradas de dentro para fora, e também de fora para dentro. Nos sentimos aprisionadas, perdidas feito Alices em um país, em um planeta, em uma realidade sem tantas maravilhas assim.
E no fim, ainda temos que ouvir: tá brava, deixe eu cuidar disso pra você! E sem perder o réu primário vamos seguindo, tentando nos proteger, sem matar e sem morrer. Sendo ridicularizadas, reduzidas, e sem saber o que fazer.
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Entregue e confie
Quando te quebram em mil pedaços, sabe o que acontece? Vc se reinventa. Você se refaz num mosaico, se monta de uma forma descontraída, desconstruída e por isso linda, ou se quebra em pedaços ainda menores até que vire confete, ou purpurina e se refaça em carnavais.
As vezes demanda tempo, mas suas partes vão sempre dar um jeito de continuar sendo você, e em sua melhor versão.
Sabe o que acontece quando quebram sua confiança? Como um balão, antes colorido, agora explodido, ela deixa de existir. Não há quebra, há aniquilação.
Acredite nas pessoas, tem muita gente do bem andando por aí, discretamente, sem ganhar as manchetes dos jornais ou sem postar loucamente nas redes sociais. Acredite, e tenha esperança de que se cercou dessa gente que te surpreende com coisas boas.
Entenda: não estamos falando de desapontamento, todo mundo vai falhar com você um dia! Até você mesmo. De várias formas possíveis. Não acredite se te disserem que isso nunca aconteceu antes. Confiança é diferente de expectativa.
Confiança é você deixar seu corpo cair, pro boy te segurar, depois de ele ter dito 'vem, eu dou conta' e você se estabar no chão. Tudo fica pior se for no sentido literal, e você estiver de vestido e sem calcinha. Acredite em mim, eu sei do que estou falando aqui.
Expectativa é você se jogar, sem sequer saber se ele tem conhecimento da sua existência, e apesar de estar bêbado, conversando com outra mina, não te deixar cair e falar: 'cuidado desgraça. Bebe menos da próxima vez.' A sua expectativa é sua.
Confiança é um presente que você ofereceu com carinho a alguém que julgava merecer, delicada, como um balão, um filhote de cachorro, ou um ovo.
Não desperdice filhotes fofos, excelentes decorações de festas infantis dos anos 80 e omeletes de alho poró (sim, alho poró) com quem já fez mal uso deles. Siga. Confie, apenas não se desperdice mais com quem já te fez doer.
cura
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