sábado, 2 de setembro de 2023

Visitas indesejadas

As visitas obscuras me desequilibram, me adoecem. Quando essa massa de ódio e negatividade cruza meu caminho, e sussurra ao meu ouvido, eu me sinto demasiadamente humana, e vulnerável. 
A legião ainda tem efeitos sobre mim, e me pergunto se algum dia será diferente.

Mas por fim me lembro: não estou mais fadada a passar meus dias no inferno, e o demônio só me visita as vezes porque não dividimos mais o mesmo lar.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

paz

Em algum momento, no ano que já passou, me perguntaram o que eu sonhava pra mim, quais eram meus planos, meus anseios, e eu disse: paz.

Precisei conhecer o inferno, e me desapegar dele, deixá-lo ir - e foi muito mais difícil do que eu poderia imaginar - ainda sinto falta de algo que não sei pontuar. Mas ao abrir mão daquilo que me consumia, mesmo pagando um preço que ainda soa alto em meu coração, o universo soprou, e dentre tantas outras coisas, eu também me sinto em paz.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Prisão

Entre a subserviência e a tirania se estende um universo, em uma de suas curvas, recostada em uma árvore, eu escolhi me sentar; eu espero. Sentada, com o queixo erguido, o peito aberto, e os olhos em desafio; sobre a mesa de pedra fria a minha frente eu exibo orgulhosa todas as minhas opiniões: fortes, com profundos alicerces. 
Mas minhas mãos estão abertas, em oferenda, e também em súplica: divida-se comigo, mas também me ouça. Misture-se comigo, sem se perder, e entenda que o que eu penso é apenas isso: brisa pensante, nuvem que pode se desfazer em condições climáticas favoráveis.
Eu construí essa opiniões com solidez, mas posso destruí-las – se se provarem tolas – com a mesma avidez – sei que não posso aprisionar ninguém por trás de suas grades subjetivas: nem você, nem eu, nem pássaros, nem os frutos de nós.
Quero crescer com o que me trazes, e ver-te em movimento com o que tenho a te oferecer – sem amarras ou dominações – para cada vez mais distante da tirania.
Não quero ser sua, nem que sejas meu – e desejo em meu coração que aprendas a ser seu, e não cego seguidor dessa voz que insiste em sussurar aos seus ouvidos, e te oferece doces confortos em troca de sua vida livre. Espero que... em alguma parada dessa longa estrada entre a posse e a prisão e a anarquia... que você encontre sua voz, seus sonhos, e ouse seguir em frente, sem voltar àquela lustrosa e ‘aconchegante’ gaiola de ouro, onde seu peito foi rasgado, seus sonhos castrados, e você só canta para entreter quem te possui.

domingo, 28 de maio de 2023

homem

No início eu via um homem nobre,
Depois pareceu-me bom,
Convenci me então que era ao menos funcional.
Hoje, me questiono se, algum dia, homem foi.

domingo, 21 de maio de 2023

mulambo

Achei que ia amar até morrer, quase morri de tanto amar.
E viva, levo um coração meio morto, doente. Sem vontade e desgostoso.
Como eu, perdeu a fé, a esperança. Apanhou tanto, que já nem lhe interessa bater.
Como eu, segue por mero vício na teimosia.
Maldito mulambo insistente

quinta-feira, 30 de março de 2023

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Você me queria perfeita, impecável;
Eu esperava que você fosse bom.
Fracassamos.

quarto

Sobre nossas cabeças há um teto, que nos separa das estrelas. De lá, mortas ou não elas podem nos espiar. 

Esse teto nos protege, nos acolhe. 

Um lar para voltar quando as jornadas e buscas derem trégua; um lar para se despir das armaduras; um lar para plantar uma semente, e enquanto as primaveras passam, vê-la crescer e se tornar sombra. 

Meu lar é onde meu coração consegue repousar, e é aqui, nessa casinha velha, barulhenta, e precisando de reparos que repousamos. A despeito das rachaduras e goteiras, eu sorrio – e vejo diariamente brotarem novas memórias de alegria – as quais, daqui um tempo, chamarei carinhosamente de saudade. 

Há muito escrito nessas paredes, sob cada camada de tinta e pó.  

Há assombrações que só eu vejo – elas gritam, de um passado, mas eu ainda sinto, escuto, e me assusto com os ecos vindos de lá – mas perdoo: há espaço para alguns fantasmas aqui, entre os livros, atrás de algumas portas, em meu peito. 

Minha casa tem um quarto desocupado – o qual tento esvaziar, tirar o entulho, mudar a cor da parede, mexer nos móveis. Ele, que é parte da minha casa, às vezes faz morada em meu peito, e o pesa – toneladas de vazio e só. Desocupado sim, vazio... já não tenho tanta certeza. Por vezes parece que esse único quarto se torna maior que minha casa, que o país, ele ocupa cada canto do meu ser – e eu nem sei mais quem sou, pelo espaço desocupado que esse quarto ocupa. 

Mas ele é só um quarto – e um quarto não desfazerá a alegria das trincas do meu lar. Não preciso redecorar, esvaziar, reformar. Posso fechar a porta, trancá-la, e me esquecer que existe, que existiu. Não isso eu não posso. Ele continuará lá, e eu, o espiarei pela fechadura. 

Talvez cada dia eu tire uma pedra, uma guimba de cigarro, eu limpe uma única marca de pé da parede, eu arranque os pregos que pendem da parede, e tampe os furos. Se cada dia eu recolher uma lata de cerveja, ou catar os cacos de uma garrafa quebrada, talvez enfim, não sobre nada. E vazio meu quarto volte a me pertencer. 

E sem pressa de ocupa-lo com novas cores, flores ou odores, eu o deixarei ser. É melhor que esteja vazio para quando um novo sol brilhar, e lá dentro desse quarto, como fazemos em todos os outros cômodos da casa, pudermos brincar. 

cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...