segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Nas margens

 Em um rio caudaloso, largo e profundo sempre me apeguei as margens. 

Minhas mãos sangravam para manter-me ali, meus ombros cansados pelo esforço pareciam pesar toneladas. Mas a margem em que me instalei tinha exatamente a bucólica e calma vista que eu desejara, que sempre planejei.

Até que um dia, ateou-se fogo a mata, e aquilo que parecera seguro, se foi.

Soltei as mãos, e deixei-me carregar leve por um rio cheio de surpresas - e sem fazer nenhum plano, jamais fui tão feliz.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Finish him... opa, não, péra!



 

Relacionamento não é competição, não é conflito, não é uma pessoa contra a outra. Relacionamento é parceria, é trabalho em equipe, é todo mundo contra um problema, qualquer que seja, para que ambos, ou todos possam ser felizes e independentes, seres individuais que somam para formar aquela relação.

Por vezes é muito difícil, parece-nos que o interesse do outro conflita em essência com o nosso – e às vezes a aparência não engana. Somos ego, egoístas e desejamos que nossa vontade seja feita, ponto. É difícil nos deslocar do lugar onde estamos e perceber que a cerveja com os amigos, o futebol, a viagem em família, as horas sozinho e em silêncio são essenciais para que o outro, ou nós mesmos, se recorde de quem é. É difícil perceber que a escolha do outro de não estar com você naquele momento não é pessoal, não é uma afronta. Entendo que não deve haver hierarquia entre relações, e vejo nossas relações como pétalas de uma flor: é preciso cuidar de todas para que sejamos saudáveis. Cada pétala é uma de nossas relações: amigos, família, trabalho, animais de estimação, e no centro, unindo todas essas pétalas estamos nós: nosso amor próprio, nossos hobbies, os momentos que precisamos estar sozinhos para nos olharmos no espelho e não nos esquecermos de quem somos.

Por mais que haja troca, é preciso manter a individualidade nas relações. E parece que me contraponho ao meu argumento inicial, certo?

Errado: individualidade não é individualismo. Quando estamos em um relacionamento, seja ele familiar, afetivo-sexual ou entre amigos o outro deve ser minimamente percebido. Não estou dizendo que devemos nos modelar nos desejos e expectativas do outro, o que estou dizendo é que é possível reduzir os danos de um conflito de interesses quando se está numa relação em que todos os envolvidos presam pelo bem estar (de todos os envolvidos). E qual a solução? A difícil arte da comunicação/ compreensão.

Você não precisa pedir autorização às pessoas com quem se relaciona para fazer o que quer, afinal as pessoas passam, e você não – mas é preciso ser claro no que deseja, e dar espaço ao outro para se posicionar. Em um mundo ideal seria mais ou menos assim: você comunica, o outro compreende, e assim como você – tem algum espaço para escolha. Assim como você, o outro tem desejos e expectativas, assim como você o outro tem direito a escolher.

Isso em mundo ideal. No mundo real temos dezenas de compromissos, esquecemos de alguns, ficamos de saco cheio, o carro quebra no meio do caminho, a comida nos faz passar mal, tem TPM, mal humor, casa, trabalho, tem família e seus conflitos, a vida é uma loucura, e portanto, eventualmente não será possível dar aos nossos semelhantes as mesmas oportunidades que galgamos para nós mesmos – e mesmo sem ter intenção, podemos quebrar o coração de vidro delicado das pessoas com quem nos relacionamos. No mundo real nos relacionamos com pessoas de mundos muito distantes dos nossos, seres que por vezes parecem alienados de uma razão tão corriqueira para nós.

Então, no mundo real nos relacionamos com seres alienígenas, que pouco compreendemos, e temos fatores externos que não podemos controlar – está armada a guerra dos mundos! Não.

Ainda que tudo tenha saído do controle, você tenha se esquecido de trocar o óleo do carro, e ele parou no caminho, e com seu celular sem bateria você não conseguiu ligar pra seguradora e nem avisar sua mãe que não conseguiria chegar em casa para jantar a macarronada que ela preparou especialmente  para você, na quarta-feira, que é o dia que você sempre chega mais cedo em casa. Bem, ela se frustrou porque você não chegou, porque fez seu prato favorito, e deixou de jogar biriba com as amigas pra te receber – mas você não podia fazer nada: você não teve escolha, ela também não. Olhar para o outro não é atender às expectativas do outro, e sim entender seus sentimentos e sentir a mínima empatia por eles: sinto muito não ter chegado a tempo! Sente sim: muita raiva de toda a série de desventuras que te aconteceram, e que não puderam ser evitadas por você – e nem pela sua mãe. Você se desculpa não por te ferido os sentimentos dela de forma intencional, mas para mostrar a ela que apesar de tudo você a vê, mesmo estando com fome, suado, sujo e pistola da vida. E ela sabe de você, vê você, mas o pedido de desculpas, ainda que você não tenha culpa, a fará perceber que você também a enxerga. Comunicação, compreensão.

Relacionamentos não são competições. Não estamos decidindo quem está certo, ou errado; quem está tendo o pior dia. Relacionamento é o somatório de individualidades e empatia. Não somos um contra o outro, somos nós, juntos contra as adversidades que possam surgir.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Em tempos de modernidade, nós mulheres somos ensinadas que podemos tudo, e podemos. 

Moramos sós, escolhemos nossos companheiros, nossos amigos, temos o direito a voto e portanto podemos (tentar) escolher nossos representantes. Cuidamos de filhos sozinhas, e até podemos pari-los sós... E não há nada de moderno nisso, minha avó o fez, dando a luz a meu pai em um dia frio de junho; nossas antepassadas e várias outras espécies o fazem na natureza.

Trabalhamos em múltiplas funções, cuidamos de casa, de sua limpeza e manutenção, cuidamos dos que amamos, e tentamos manter nossa saúde mental.

Disseram-nos que nós podemos tudo, mas não nos disseram que não precisamos dar conta de tudo; que é possível pedir ajuda, e que isso não faz de nós menos humanas.

Venho de uma família em que fui ensinada a carregar tijolos, assim como meus irmãos, porque a casa que se erguia também era meu lar,  meu abrigo, o lugar onde eu encontraria paz e acolhimento.

Meu pai nos dizia o que tínhamos que fazer. Não era um pedido de ajuda, era simplesmente algo que precisávamos entender: se queremos ser parte de algo, precisamos ajudar a construir e manter esse algo. É em cada tijolo que mora a edificação de algo maior. Ele certamente conseguiria fazer só, mas a um custo alto de seu tempo, seu esforço. Portanto, ainda crianças, aprendemos, eu e meus irmão, que cada um de nós deveria contribuir com o que pudéssemos. Fosse um tijolo, levar um copo de água, lavar a louça, cuidar nos animais de estimação.

A vida adulta, e nossas vitórias nos dizem que podemos tudo - novamente, podemos, mas qual é o preço que pagamos por não conseguir algo tão simples, que também podemos fazer? Alguém pode me ajudar com essa resposta?

Esperamos que o outro veja nossos esforços, e se comova. Esperamos que o outro perceba nossa luta em nossos olhos cansados, enquanto nossos lábios dizem: tudo bem, eu vou dar um jeito.

Acostumamo-nos ao choro contido, escondido, às frustrações; a aceitar o medíocre, porque dentre as coisas que podemos fazer também está se acostumar a terrenos tão diferentes daqueles que sonhamos.

Podemos: vencer, nos entregar, pedir ajuda... ajudar.

Um olhar de amor, compreensão, empatia, uma chávena de café, uma mensagem de apoio, embalar os copos na mudança, segurar a alça da urna que carrega a morte de alguém que amávamos... há tantas formas de ajudar, e de ser ajudado.

Pedir ajuda pode ser ruidoso, e por vezes nossa exaustão é tão grande que não percebemos que não é clara para outro. Então não pedimos, esperamos que percebam que estamos nos afogando, e enquanto esperamos nos afogamos. E enquanto observamos sem olhar, vemos pessoas que amamos se afogar, sem saber que poderíamos ajudar... porque pra quem se afoga não importa a profundidade, só há a inabilidade, o desespero, o cansaço.

Para quem observa é muito claro: 'coloque-se pé, essa profundidade não é suficiente para lhe afogar' ou 'alcance a tampa da banheira, e simplesmente a remova'. Enquanto observamos sem ver, as forças do outro se vão, e talvez pensemos - mas era tão fácil, ele deveria ter se salvado. Sim, era fácil, mas era fácil pra quem? Também podemos nos colocar no lugar do outro, ainda que caminhar até ali seja um percurso árduo. Nos sapatos do outro, mesmo assim, não sabemos como é ter os pés do outro, seus calos, os rastros das estradas poeirentas, ou não, por onde caminhara.

Podemos pedir ajuda, e também podemos ajudar, e por que diabos sabemos que podemos ser cientistas, sermos eleitas, instrumentistas, jardineiras, mestres de obra, mães e amigas e nos esquecemos dessa espada, que corta para ambos os lados, e pode simplesmente nos salvar, nos ajudar a seguir?


Ps.: as vezes não pedimos por medo da resposta, por não saber se a mão mais próxima irá nos amparar.



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Pequena morte

 

 




Um pedaço de mim morreu. Era bonito, caloroso, sonoro. Era aventureiro, destemido, feliz. Era a parte tingida de vermelho dentro de mim. Parecia um pedaço pequeno, até mesmo para olhos bem treinados. E vazia, parecia leve – segui.

O vazio deixado por aquela pequena morte foi aos poucos sendo ocupado, canto abandonado no jardim, tomado por toda sorte de mato selvagem depois do primeiro dia de chuva fraca. A chuva, que poderia ter sido refresco para terrenos quentes, foi alimento pro mato que queria nascer, e tendo espaço e solo fértil germinou, brotou, tomou conta de tudo.

Como labareda que outrora ocupara aquele lugar, o mato tomou conta de tudo, com violência, cegueira, e dor. Impiedoso ocupou não apenas o espaço deixado pelo pedaço que sucumbiu, cobriu tudo. Ali, não havia mais flor, vida, verde, ar, não havia mais sol, só havia o mato desordenado, sufocante, onde nem a mais leve das borboletas poderia sobreviver.

Apenas mato seco, e a vida rasteira e venenosa; e o medo da secura rachada, e da vida - rasteira e venenosa; e de uma nova morte. O coração batia dilacerado, o ar chegava incendiado aos pulmões, o corpo tremia. Era instinto de fuga, porque nova morte é certa.

Agora vivo com medo, qual pedaço de mim me abandonará? O recém-nascido oco e infértil de quem quero me livrar, e que precisa morrer? Por vezes um sussurro diz que apenas  matando o todo, poderei matar o oco. Há nesse momento um nada sombrio que toma conta de tudo que era alegria. É como se sorriso fosse palavra que não existe no dicionário.

A pergunta não cala, jamais, está em cada batida doída em meu peito pesado: qual pedaço de mim se despedaçará? Qual dos quatro cantos no meu mundo?

Uma pequena morte, um pequeno vazio. Um fósforo incendiário no seco mês de setembro, quando o chão se abre sobre nossos pés – um pouco de cada vez, e nos engole inteiros, sem promessa de devolução.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O fim dos frutos

 

Hoje eu colhi as últimas mexericas.

Agradecia a árvore enquanto lembrava que meses antes eu havia desejado silenciosamente a possibilidade de aproveitar-me, pelo menos um pouco, de seus frutos, antes de partir. Lembrei-me de quase ter matado sua vizinha, um pé de acerola, por não regá-las, por não ver na vida razão de ser – mas isso foi em outra vida, uma que acabou.



Enquanto colhia os frutos, e admirava o chão coberto de frutos destruídos por meus cães, e pelos papagaios que me vem visitar e latir, quando meus cães se esticam por tempo demais embaixo do sol, pensava em quantos frutos tinham sido colhidos, em todas as pessoas que tinham se aproveitado comigo das  pequenas e mexeriqueiras criações daquela árvore. Quantas sacolas cheias de tangerina levei em meu carro; quantas horas me esticando para ‘panhá-las’ e dividi-las com os meus; quantas sementes transportadas, algumas plantadas, outras comidas por pássaros e pelo Doritos, outras simplesmente descartadas, sem saber dos pomares que carregavam dentro de si, de como as pessoas iriam adorar seu frutos, e falar deles em almoços de domingo, nas redes sociais, ou em café da tarde entre mãe e filha.

Uma pontada de tristeza passou feito nuvem leve por meus olhos, sem saber se novamente poderei desfrutar de tão simples, pequenos e doces frutos. Olhando para cima, para as derradeiras e murchas bergamotas ainda coladas no pé, vi o céu azul, senti o vento de agosto que soprava a terra seca em meus pés, e vislumbrei, no ponto onde a mexeriqueira e a amoreira se encontravam, os primeiros pontinhos pré-enegrecidos do pé de amora.

Aquele pé de amora... que tanto insistiram para que eu cortasse: não cortei. E hoje ele veio me lembrar – há sempre uma estação, uma estrada, para recomeçar, para nos adoçar, para nos dar esperança. E enquanto essa terra  aqui, dura e pouco fértil for meu lar, eu a abraçarei com carinho: sendo grata por tudo que nesse chão brotar e frutificar – e mesmo quando não. Farei daqui meu reino, um pomar de sonhos e alegrias, que como a temporada de mexericas encontrará seu fim; e que como a temporada de amoras, se iniciará – nessa terra, ou em outro lugar.

 


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Tempo... Sempre o tempo.

 O tempo do outro não nos pertence, assim não escolhemos como devem usá-lo. Mas se privilegiados, podemos escolher como viver o nosso. Sim, viver. Porque tempo é a vida que escorre entre nossos dedos enquanto seguramos o celular, a mirar sua tela, esperando um telefonema, ou uma resposta. Vida que não volta nunca mais. Tempo é a brisa que faz girar as engrenagens do relógio.

Enquanto a resposta a algo que julgamos tão relevante que jogamos para o outro não vem, nós não perdemos tempo. Ele corre, da mesma forma que correria se ao invés da espera resolvêssemos viver, e ter aquela conversa com a amiga do ginásio, reler aquele livro que tem cheiro de saudade, na soneca cheia de sonhos macios, ou num banho pra lavar a alma e o cabelo antes da meia noite. 

Não há nada de errado. Ela não precisa te querer no seu tempo - mas é claro que dói saber que enquanto você espera, olhando o tempo passar - sem passar a roupa, nem o rodo, nem o medo passa - ela não te encaixa no tempo de duas palavras. Num refrão.

Dói reagir e entristecer-se s por que pra ela você não é nem o segundo no quinquagésimo nono segundo da hora final de uma segunda-feira, em que você esperou todo dia, sem segundas intenções, só por se importar e querer notícias.

Ela não te pediu que esperasse - mas esperastes; por esperança e expectativa, enquanto os minutos agonizavam.

Talvez ela tenha dito que ligaria - mas quando? Até quando? 

E você espera até não querer mais, literalmente. Até que a resposta tenha se tornado tão irrelevante quanto você, e saber como foi o dia dela já seja um capítulo do passado. E se ela vier, a resposta, será como o tempo que passou enquanto você esperava - vazio, intocável.

Também esperei. Mas tornei-me boa em deixar tudo pra trás: o tempo, a mala, a estrada - ainda que me doa. Sei acertar meu ponteiro, aceitar meu lugar no calendário, na linha cronológica, na breve história de um suspiro.

Assim como o tempo, eu não cesso, eu não sou, eu me dobro, eu vôo. E aprendo:

Não nos pertence o tempo do outro, nem ao outro pertencemos, nem nosso tempo - ao menos que assim desejemos desperdicar-nos - então, tomo o tempo que me resta, em longos goles sedentos, dias e momentos só meus.

cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...