terça-feira, 1 de junho de 2021

Na sua estante

 

Livros são universos. Línguas diferentes, gêneros diversos, uma infinidade de temas. Há poemas sobre pedras no meio do caminho, enciclopédias sobre rochas magmáticas, escritas em línguas que sequer entendemos o alfabeto.

Cada leitura é um mergulho profundo, intencional. Cada volta aquelas páginas um novo laço. Sempre perco um tempinho pensando como aquele livro chegou até minhas mãos, ou como minhas mãos chegaram àquele livro – e me comprometo, e me conecto, mergulho. Antes de abrir suas páginas, eu me abro àquele universo – e por alguns dias sinto como se fôssemos um.

Poucos foram os livros para os quais não me abri, poucos foram os livros que não guiaram meus passos: alguns mudaram meu percurso para todo sempre, me fazendo recuar, querer evoluir, ou dando forma a sentimentos que eu sequer sabia ter. Alguns me colocaram novamente em pé, em momentos de angústia. Outros me mostraram histórias que não quero partilhar, personagens corrompidos, histórias superficiais.

Mas num universo de possibilidades literárias, existirão histórias que nunca serão lidas, mesmo com prateleiras iluminadas, capas sedutoras, páginas escancaradas. Falta tempo, conhecimento daquele idioma, sobram opções, inclusive mais fáceis, como séries de TV, e vídeos de quinze segundos.

Como livros, pessoas são universos. Gêneros, línguas, tons, temas. Só é possível entender o enredo se soubermos aquele idioma; só é possível entender a mensagem naquelas páginas se nos comprometermos a nos abrir a elas, profundamente. Existem livros, e também pessoas, que nos fazem questionar nossa capacidade de leitura e interpretação, parece-nos que jamais fomos sequer alfabetizados. Existem livros magníficos escondidos em bibliotecas abandonadas, com capas tão discretas que jamais o abriremos: eu disse livros? Estava falando sobre pessoas.

Só é possível ler aquilo que está dentro de nossas habilidades, linguísticas e sociais, e isso serve para livros e pessoas. Mas nosso comprometimento afeta nossa leitura, de livros e também pessoas. Podemos aprender um novo idioma para ler um original ou podemos contar com a ajuda de uma tradução, tudo depende de nosso desejo, de quão importante aquela história é para nós.

Todos somos livros, histórias, e universos. Alguns de nós se escancaram, outros se escondem atrás de parcas capas e folhas de papel jornal, ou de um PDF há muito esquecido num pendrive já não abandonado. Por vezes preferimos arrancar algumas de nossas páginas, para nos fazermos mais atraentes, um bestseller.

Eu escolhi ser um livro aberto, mas não revelo todos os segredos de meu enredo para qualquer um. Sou um livro aberto, em um idioma meio esquecido, perdido em sebo antigo. Poucas pessoas se interessarão por minhas páginas, e se abrirão para mim – mas  me interessam mais as leituras profundas, longas. Não quero ser bestseller e sim livro de cabeceira de quem quis algum dia me ler, e compreender.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Escalada

 Escalar uma montanha foi uma experiência fantástica, eu poderia resumir assim, mas quantos detalhes, quantas pequenas vitórias, e momentos de angústia eu estaria negligenciando?


No meio de uma depressão que me tirou do rumo, e colocou minha vida de cabeça pra baixo, resolvi realizar o sonho de ir a Machu Picchu. Sem grana, sem alunos, rapei o resto da poupança e parti pra Cuzco, em minha primeira viagem solo. Sem falar espanhol, sem ninguém pra me salvar, nem seguro de viagem, fugi de minha própria casa, onde morava sozinha, pela primeira vez em 33 anos de vida, e parti rumo a ilusão de tentar me reencontrar. 


A viagem foi sabática - não me encontrei, nem me reencontrei, nem me construí, também não me destruí, só voltei com o sentimento de que em algum momento eu iria dar conta de tudo que precisasse dar conta.


Mas minha grande conquista, foi formada por pequenas derrotas: subir os mais de 5000 metros de altura da Montanha Colorida, ou .... Apu Winicunca


Saí do Brasil com o único objetivo de visitar Machu Picchu, todo resto foi improviso. No hostel onde me hospedei li sobre a tal montanha, peguei um mapa de Cuzco e saí perambulando sem rumo. 


Na Praça das Armas me ofereceram mil pacotes, 'conversei' em meu espanhol 'fluentito' com dezenas de pessoas, por fim, cansada, sem base para, fechei vários passeios com qualquer um. 


O passeio para a Montanha Colorida começava as 3 da manhã. Acordei cedo, com frio, com meus caramelitos de coca, e remédio contra 'soroche' e esperei  a van vir me buscar. Vi todas as pessoas saindo do hostel para seus tours, enquanto eu ficava pra trás. Quando ouvi um sobrenome parecido com o meu, e não havia mais ninguém, entrei na van, rumo ao meu de destino. Eu fui a primeira a entrar no veículo, e rodei por todas as hospedarias de Cuzco, pegando os demais turistas que me acompanhariam na jornada. Antes de pegar a estrada já tinha fracassado em manter uma conversa interessante com um alemão, e estava olhando pela janela, pensando quando o sol iria nascer.


De repente retornarmos ao ponto inicial, o hostel onde eu estava hospedada, afinal o sobrenome era Auby, da norueguesa que não acordou a tempo, e não Alves, a brasileira  que achava que não tinha mais nada a perder.

Temi que me deixassem pra trás, após a 'tanto' esforço... Por fim, levaram Auby e Alves, e nossos 12 anos de diferença de idade, e no fim ninguém teve prejuízo.


A viagem foi longa e parte dela por uma estrada estreita, de terra, que serpenteava agourenta por entre as montanhas. Doia-me a cabeça, pela altitude, o peito pelas incertezas, latejava o coração, por ser teimoso demais.


Ao chegar no sopé da montanha, nos instruíram sobre as dificuldades, sobre a possibilidade de subir com a ajuda de um burrico, sobre o tempo estimado, sobre os efeitos da altitude em nossos corpos, e como um ventre que pare um bebê, nos disseram: agora é com vocês.


A paisagem era linda, fria, preenchida de vento, cachorros felpudos e as cores dos Andes. Caminhei lado a lado com a moça do mal entendido: fracassei com o alemão, me dei bem com ela. Conversamos, rimos, falamos de cultura, relacionamentos, e sonhos... Os dela. Não pareciam me restar muitos naquela época. 


Dividimos o mesmo hostel, na verdade o mesmo quarto, mas a distância etária que nos separava fez com que ela dissesse: vou na frente, te encontro lá em cima.


Sozinha, como vim ao mundo, como me via então, segui. 


É assim, como na frase anterior, que me vejo na maioria dos dias. Mas segui, seguindo. O ar ficava cada vez mais rarefeito, e ao invés de buscar o topo da montanha, eu pensava: será que consigo dar mais dez passos? Quanto tempo até eu parar de novo? E eu andava, parava, tentava descansar sem quem meus pulmões obtivessem ar suficiente pra me aliviar, recomeçava. Mais teimosa que os burricos que empacavam com turistas em seus lombos, eu segui, mesmo sem acreditar muito.    


Dez passos, foram se transformando em cinco, as paradas ficaram mais longas, e por fim, de passo em passo, teimosa como um burro, sem crer, eu cheguei. 

Ainda suspiro ao lembrar de que cheguei, a vista era deslumbrante, mas ter chegado lá em cima, mesmo depois de tantas pequenas derrotas, mesmo sem preparo físico, mesmo sozinha, mesmo tendo que parar a cada passo, me ensinou que não vai ser como eu queria... Mas será. O final da escalada é sempre a parte mais difícil, dá vontade de desistir. Os primeiros passos da jornada, por vezes tão negligenciados, são tão parte da estrada quanto os da linha de chegada.


Quantas escaladas desde então? É que eu já perdi as contas de quantas vezes levei meus fracassos humanos para o alto da montanha, onde eu não conseguia sequer respirar. E mesmo sem ar, sem força, sem rumo, eu olhei pro horizonte, e soube que eu consegui. Eu cheguei até aqui, e mesmo errante, daqui a pouco eu também chego lá. 

segunda-feira, 15 de março de 2021

 

Qual o peso de sua solidão? A verdade é que nascemos sozinhos, mesmo quando gerados juntos, cada um em seu momento, do seu jeito e com suas dores.


E assim morremos. Ainda que morramos junto a centenas de outras pessoas em um acidente aéreo, junto aos milhões exterminados pelo nazismo em câmaras de gás, ou dizimados como mera estatística num vírus de atividade global.
Nós somos únicos, nossas histórias são únicas - bem como nossas dores; nossas quedas; o esforço que fazemos para nos reerguer, para aprender a respirar quando nascemos.


Todos nós enfrentaremos traumas, perdas, nascimentos, recomeços, violências, abandonos. Todos nós nos sentiremos tão despedaçados em algum momento que mesmo a brisa mais suave parecerá desfazer ainda mais nossos frangalhos. E é aí que a solidão vem. Porque não há para quem pedir ajuda quando estamos todos em queda livre. A deriva num oceano.

Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/%C3%A1gua-oceano-mar-escuro-ondas-2588015/

E a tentativa de ser solidário, de manter a calma para que aqueles que amamos não se percam também, em algum momento vai fracassar. E mesmo sabendo que ninguém virá, você irá gritar. Suplicar por ajuda, por amor, para que o fim se aproxime logo. Você irá de debater, e talvez levar algumas pessoas para o fundo com você. Ainda que você tenha tentado sofrer calado, sozinho, em algum momento verá que ninguém estará de fato com você.


As vezes minha solidão é leve. Abraço-a como uma velha, e muito bem conhecida amiga. Ás vezes ela me surra como uma bola de demolição, e me pergunto quantos dias demoraria para que alguém encontrasse meu corpo caso eu simplesmente deixasse de respirar. Quantos dias meus cães sobreviveriam sem água e comida depois que eu mesma parasse de respirar. Quanto tempo eu consigo ficar sem comer, já que as feridas causadas por essa solidão me feriram tanto que todo meu corpo está fraturado.


Quanto tempo até eu desistir, e simplesmente deixar meu corpo afundar em solitária paz, já que apesar dos desesperados pedidos de ajuda, ninguém virá em meu socorro?




Seremos sempre sós, ainda que acompanhados. Mas solidão que sentimos nesse isolamento, onde nem um olhar de solidariedade vem pousar em nossas feridas, nenhuma compreensão vem segurar nossa mão, ah, essa solidão eu não desejo a ninguém.
Ela nos deixa famintos, gelados. Não há ninguém sequer para acender uma luz no corredor, ou nos lembrar de escovar os dentes. Ela esvazia nossas entranhas, e nos vemos ir embora, aos poucos, calados, sozinhos, sem a paz de um abraço.
 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Nas margens

 Em um rio caudaloso, largo e profundo sempre me apeguei as margens. 

Minhas mãos sangravam para manter-me ali, meus ombros cansados pelo esforço pareciam pesar toneladas. Mas a margem em que me instalei tinha exatamente a bucólica e calma vista que eu desejara, que sempre planejei.

Até que um dia, ateou-se fogo a mata, e aquilo que parecera seguro, se foi.

Soltei as mãos, e deixei-me carregar leve por um rio cheio de surpresas - e sem fazer nenhum plano, jamais fui tão feliz.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Finish him... opa, não, péra!



 

Relacionamento não é competição, não é conflito, não é uma pessoa contra a outra. Relacionamento é parceria, é trabalho em equipe, é todo mundo contra um problema, qualquer que seja, para que ambos, ou todos possam ser felizes e independentes, seres individuais que somam para formar aquela relação.

Por vezes é muito difícil, parece-nos que o interesse do outro conflita em essência com o nosso – e às vezes a aparência não engana. Somos ego, egoístas e desejamos que nossa vontade seja feita, ponto. É difícil nos deslocar do lugar onde estamos e perceber que a cerveja com os amigos, o futebol, a viagem em família, as horas sozinho e em silêncio são essenciais para que o outro, ou nós mesmos, se recorde de quem é. É difícil perceber que a escolha do outro de não estar com você naquele momento não é pessoal, não é uma afronta. Entendo que não deve haver hierarquia entre relações, e vejo nossas relações como pétalas de uma flor: é preciso cuidar de todas para que sejamos saudáveis. Cada pétala é uma de nossas relações: amigos, família, trabalho, animais de estimação, e no centro, unindo todas essas pétalas estamos nós: nosso amor próprio, nossos hobbies, os momentos que precisamos estar sozinhos para nos olharmos no espelho e não nos esquecermos de quem somos.

Por mais que haja troca, é preciso manter a individualidade nas relações. E parece que me contraponho ao meu argumento inicial, certo?

Errado: individualidade não é individualismo. Quando estamos em um relacionamento, seja ele familiar, afetivo-sexual ou entre amigos o outro deve ser minimamente percebido. Não estou dizendo que devemos nos modelar nos desejos e expectativas do outro, o que estou dizendo é que é possível reduzir os danos de um conflito de interesses quando se está numa relação em que todos os envolvidos presam pelo bem estar (de todos os envolvidos). E qual a solução? A difícil arte da comunicação/ compreensão.

Você não precisa pedir autorização às pessoas com quem se relaciona para fazer o que quer, afinal as pessoas passam, e você não – mas é preciso ser claro no que deseja, e dar espaço ao outro para se posicionar. Em um mundo ideal seria mais ou menos assim: você comunica, o outro compreende, e assim como você – tem algum espaço para escolha. Assim como você, o outro tem desejos e expectativas, assim como você o outro tem direito a escolher.

Isso em mundo ideal. No mundo real temos dezenas de compromissos, esquecemos de alguns, ficamos de saco cheio, o carro quebra no meio do caminho, a comida nos faz passar mal, tem TPM, mal humor, casa, trabalho, tem família e seus conflitos, a vida é uma loucura, e portanto, eventualmente não será possível dar aos nossos semelhantes as mesmas oportunidades que galgamos para nós mesmos – e mesmo sem ter intenção, podemos quebrar o coração de vidro delicado das pessoas com quem nos relacionamos. No mundo real nos relacionamos com pessoas de mundos muito distantes dos nossos, seres que por vezes parecem alienados de uma razão tão corriqueira para nós.

Então, no mundo real nos relacionamos com seres alienígenas, que pouco compreendemos, e temos fatores externos que não podemos controlar – está armada a guerra dos mundos! Não.

Ainda que tudo tenha saído do controle, você tenha se esquecido de trocar o óleo do carro, e ele parou no caminho, e com seu celular sem bateria você não conseguiu ligar pra seguradora e nem avisar sua mãe que não conseguiria chegar em casa para jantar a macarronada que ela preparou especialmente  para você, na quarta-feira, que é o dia que você sempre chega mais cedo em casa. Bem, ela se frustrou porque você não chegou, porque fez seu prato favorito, e deixou de jogar biriba com as amigas pra te receber – mas você não podia fazer nada: você não teve escolha, ela também não. Olhar para o outro não é atender às expectativas do outro, e sim entender seus sentimentos e sentir a mínima empatia por eles: sinto muito não ter chegado a tempo! Sente sim: muita raiva de toda a série de desventuras que te aconteceram, e que não puderam ser evitadas por você – e nem pela sua mãe. Você se desculpa não por te ferido os sentimentos dela de forma intencional, mas para mostrar a ela que apesar de tudo você a vê, mesmo estando com fome, suado, sujo e pistola da vida. E ela sabe de você, vê você, mas o pedido de desculpas, ainda que você não tenha culpa, a fará perceber que você também a enxerga. Comunicação, compreensão.

Relacionamentos não são competições. Não estamos decidindo quem está certo, ou errado; quem está tendo o pior dia. Relacionamento é o somatório de individualidades e empatia. Não somos um contra o outro, somos nós, juntos contra as adversidades que possam surgir.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Em tempos de modernidade, nós mulheres somos ensinadas que podemos tudo, e podemos. 

Moramos sós, escolhemos nossos companheiros, nossos amigos, temos o direito a voto e portanto podemos (tentar) escolher nossos representantes. Cuidamos de filhos sozinhas, e até podemos pari-los sós... E não há nada de moderno nisso, minha avó o fez, dando a luz a meu pai em um dia frio de junho; nossas antepassadas e várias outras espécies o fazem na natureza.

Trabalhamos em múltiplas funções, cuidamos de casa, de sua limpeza e manutenção, cuidamos dos que amamos, e tentamos manter nossa saúde mental.

Disseram-nos que nós podemos tudo, mas não nos disseram que não precisamos dar conta de tudo; que é possível pedir ajuda, e que isso não faz de nós menos humanas.

Venho de uma família em que fui ensinada a carregar tijolos, assim como meus irmãos, porque a casa que se erguia também era meu lar,  meu abrigo, o lugar onde eu encontraria paz e acolhimento.

Meu pai nos dizia o que tínhamos que fazer. Não era um pedido de ajuda, era simplesmente algo que precisávamos entender: se queremos ser parte de algo, precisamos ajudar a construir e manter esse algo. É em cada tijolo que mora a edificação de algo maior. Ele certamente conseguiria fazer só, mas a um custo alto de seu tempo, seu esforço. Portanto, ainda crianças, aprendemos, eu e meus irmão, que cada um de nós deveria contribuir com o que pudéssemos. Fosse um tijolo, levar um copo de água, lavar a louça, cuidar nos animais de estimação.

A vida adulta, e nossas vitórias nos dizem que podemos tudo - novamente, podemos, mas qual é o preço que pagamos por não conseguir algo tão simples, que também podemos fazer? Alguém pode me ajudar com essa resposta?

Esperamos que o outro veja nossos esforços, e se comova. Esperamos que o outro perceba nossa luta em nossos olhos cansados, enquanto nossos lábios dizem: tudo bem, eu vou dar um jeito.

Acostumamo-nos ao choro contido, escondido, às frustrações; a aceitar o medíocre, porque dentre as coisas que podemos fazer também está se acostumar a terrenos tão diferentes daqueles que sonhamos.

Podemos: vencer, nos entregar, pedir ajuda... ajudar.

Um olhar de amor, compreensão, empatia, uma chávena de café, uma mensagem de apoio, embalar os copos na mudança, segurar a alça da urna que carrega a morte de alguém que amávamos... há tantas formas de ajudar, e de ser ajudado.

Pedir ajuda pode ser ruidoso, e por vezes nossa exaustão é tão grande que não percebemos que não é clara para outro. Então não pedimos, esperamos que percebam que estamos nos afogando, e enquanto esperamos nos afogamos. E enquanto observamos sem olhar, vemos pessoas que amamos se afogar, sem saber que poderíamos ajudar... porque pra quem se afoga não importa a profundidade, só há a inabilidade, o desespero, o cansaço.

Para quem observa é muito claro: 'coloque-se pé, essa profundidade não é suficiente para lhe afogar' ou 'alcance a tampa da banheira, e simplesmente a remova'. Enquanto observamos sem ver, as forças do outro se vão, e talvez pensemos - mas era tão fácil, ele deveria ter se salvado. Sim, era fácil, mas era fácil pra quem? Também podemos nos colocar no lugar do outro, ainda que caminhar até ali seja um percurso árduo. Nos sapatos do outro, mesmo assim, não sabemos como é ter os pés do outro, seus calos, os rastros das estradas poeirentas, ou não, por onde caminhara.

Podemos pedir ajuda, e também podemos ajudar, e por que diabos sabemos que podemos ser cientistas, sermos eleitas, instrumentistas, jardineiras, mestres de obra, mães e amigas e nos esquecemos dessa espada, que corta para ambos os lados, e pode simplesmente nos salvar, nos ajudar a seguir?


Ps.: as vezes não pedimos por medo da resposta, por não saber se a mão mais próxima irá nos amparar.



cura

Disseram-me que eu me curaria. Mas como me curar da própria vida, da própria história, daquilo que indiscutivelmente desenhou linhas em meu ...